Revista Rua


Cidade narrada, tempo vivido: estudos de etnografias da duração
City told, Time lived: Studies in Ethnography of the Duration

Ana Luiza Carvalho da Rocha, Cornelia Eckert

O tema predominante para falar da condição atual é a saúde e os filhos. O projeto familiar quanto aos filhos lhes parece bem-sucedido, seja na carreira militar de um filho, seja na de pequeno comerciante de outro filho. Transitando, no espaço fantástico da memória, do tempo passado ao tempo presente, e vice-versa, ambos comentam que os ganhos da aposentadoria tem lhes permitido, hoje, uma dinâmica sazonal de moradia, dividindo-os entre residir no apartamento situado na capital, em Porto Alegre, e, em períodos de clima ameno e calor, a estadia na casa de veraneio em Cassino, já cercada para maior segurança, após uma tentativa de assalto. A preferência por longas temporadas na praia se deve à oficina de marcenaria montada na garagem e onde Seu Castro pode criar sua arte. Em Porto Alegre, passam todo o período de frio ou sempre que precisam recorrer a exames médicos, seja para controlar os problemas cardíacos do Seu Castro, seja para controlar as dores de coluna e de varizes de Dona Emma. Falam das peripécias para os tratamentos médicos. Uma série de nomes de médicos e suas especialidades são citadas, sempre mapeadas por falas do envelhecimento e que trazem a dramática de dores, de doenças, de curas, de autodiagnósticos entrelaçados à fé católica. O simples, mas sempre acessível, Hospital Ernesto Dornelles, próximo ao seu local de moradia, é elogiado a cada cirurgia relatada. Às dificuldades de hoje, às dores do dia de ontem, às pernas inchadas para a consulta prevista para amanhã, misturam as lembranças de sortes e dificuldades da vida que transcorre com a “benção de Deus”. Os encontros continuam, com a tônica no cotidiano.
Pouco a pouco, damo-nos conta de que aquilo que é ordenado nas narrativas de ambos, Seu Castro e Dona Emma, conjuga as experiências pessoais que configuram microcosmos de experiências singulares de moradores de uma grande cidade às situações macrocósmicas vividas por outros moradores do mesmo bairro, pertencentes ao mesmo estilo de vida e visão de mundo. Fenômeno este que os situa no interior dos paradoxos de toda ordem da modernidade, nos termos simmelianos, da tragédia da cultura (1934). Nesse conjunto de ações ordinárias relatadas para nossos ouvidos e diante de nossos olhos, os narradores conhecem e reconhecem progressivamente a superposição de tempos e espaços que transcendem a toda uma comunidade de sentido e de pertença, mas que suas próprias biografias veiculam. A cada experiência singular nos bairros e territórios de Porto Alegre, em seus itinerários e trajetórias, relacionam-se dinâmicas institucionais, experiências