Introdução
Neste artigo, temos como proposta analisar efeitos de sentidos que se constituem a respeito do trabalho uberizado no discurso jornalístico, na conjuntura socio-histórica brasileira, em dizeres com circulação na mídia sobre o trabalho, os trabalhadores e as relações trabalhistas afetadas pelo avanço das plataformas digitais. O termo trabalho uberizado ou uberização do trabalho, utilizado no presente artigo, remete às precárias condições de trabalho impostas pelas plataformas digitais prestadoras de serviço de transporte de pessoas e mercadorias, dais quais a Uber se tornou a mais representativa por seu tamanho e pioneirismo no Brasil, caracterizadas pela não formalização dos vínculos contratuais entre as empresas e os motoristas, pela transferência dos custos da produção para o trabalhador, pela eliminação do limite legal da jornada de trabalho, pela desregulamentação das práticas laborais e perda de direitos trabalhistas.
Com o avanço da reestruturação do mercado de trabalho, impulsionado por processos socio-históricos relacionados à crise do capitalismo, os avanços tecnológicos e o desenvolvimento de novas formas de organização e gestão, a partir da segunda metade do século XX, novas formas de trabalho passam a produzir a paulatina destruição das garantias e direitos trabalhistas para favorecer o aumento dos níveis de lucro das empresas (André; Silva; Nascimento, 2019). Discursivizadas como modernização ou flexibilização das relações trabalhistas, ganho de autonomia e liberdade, e empreendedorismo, esse processo encontrou no trabalho através das plataformas digitais maior possibilidade de ampliação da precarização das condições de trabalho. Desse modo, buscar compreender como o discurso da mídia, enquanto aparelho ideológico de estado (Althusser, 1987) produz efeitos de sentido para o trabalhador que atua por aplicativos na atualidade ganha fundamental importância para enfrentarmos a intensificação da exploração e precarização do trabalho.
Nossa análise incide sobre três matérias, publicadas em sites de notícias online (BBC News, Uol e A Tarde) entre abril e maio de 2024, que abordam a pesquisa etnográfica realizada pelo procurador do Ministério Público do Trabalho Ilan Fonseca que atuou como motorista por aplicativo (Uber), durante 4 meses, em Salvador, Bahia, como parte de sua pesquisa de doutorado a respeito da subordinação dos motoristas às plataformas digitais, e uma matéria publicada no portal de notícias G1 sobre uma decisão da justiça do trabalho que condena a empresa Uber a pagar indenização e contratar os motoristas.
Sob a égide da Análise de Discurso de linha francesa, proposta por Michel Pêcheux, buscamos organizar nossas reflexões, no presente artigo, em três seções, além dessa introdução: na primeira, refletimos sobre as condições de produção que possibilitam e atuam no dizer; na segunda seção, empreendemos gestos de análise sobre o funcionamento do discurso jornalístico em relação a produção de sentido para os trabalhadores precarizados através de processos de designação, a relação do dizer com a memória discursiva na tensão entre movimentos de reiteração de já ditos (paráfrase) e produção de deslizamento de sentido (polissemia), e examinamos ainda como o funcionamento ideológico apaga a exploração e a assimetria de força entre o trabalhador e a empresa; na terceira seção, realizamos nossas considerações finais ao buscar refletir sobre o modo como as disputas de sentido sobre a uberização do trabalho produzem efeito sobre a língua no movimento de reproduzir e deslocar sentidos que atuam sobre a memória discursiva.
Das condições de produção: o trabalho precarizado como horizonte (im)possível
Na busca por compreender o funcionamento do discurso jornalístico ao produzir sentido para o trabalhador precarizado que atua através das plataformas digitais é fundamental relacionarmos o dizer ao tecido socio-histórico que possibilita sua elaboração e o constitui. Segundo os pressupostos teórico-metodológicos da Análise de Discurso, não se pode analisar um discurso como se este fosse apenas um texto, uma sequência linguística fechada e desconectada de sua historicidade a ser decodificada pelo interlocutor. Deve-se considerar ainda sua remissão a um conjunto de dizeres anteriores e possíveis, construído a partir de processos discursivos sedimentados afetados por determinadas condições de produção.
Distanciando-se de outras perspectivas linguísticas que examinam a língua como uma estrutura homogênea, construída e compartilhada coletivamente, a Análise de Discurso parte do dizer enquanto estrutura e acontecimento no qual a relação linguagem/pensamento/mundo se materializa. Os estudos discursivos interrogam o texto em sua multidimensionalidade de sentidos e impermanência construídos sob determinadas condições históricas de produção (Orlandi, 2001).
Destarte, a linguagem não é delimitada pela dimensão do texto, ela se produz sob sentidos pré-construídos e resgatados de uma memória discursiva. Para Pêcheux e Fuchs ([1975] 1997), todo sujeito remete seu dizer a uma construção coletiva anterior que reflete uma concepção da realidade estabelecida no cerne de um contexto socio-histórico em que o conflito de classes e as relações de poder estão em jogo.
Desse modo, a noção de discurso, na abordagem preconizada por Pêcheux, abrange os elementos exteriores que atuam no dizer e produzem efeitos de sentidos, considerando o processo socio-histórico, a reflexão sobre as posições dos sujeitos interpelados pela ideologia, e a situação. Todos esses elementos constituem as condições de produção do discurso, “tudo o que, fora a linguagem, faz que um discurso seja o que é: o tecido histórico-social que o constitui” (Maldidier, 2017, p. 23).
No presente artigo, compreendemos que as mudanças nas estruturas e nos processos produtivos, com a reestruturação do mercado de trabalho e destruição de direitos e garantias trabalhistas, aceleradas pelo avanço da exploração da força de trabalho pelas plataformas digitais, se insere em um processo inicialmente implementado, de forma experimental na América Latina, a partir dos anos 1960. Conforme o projeto econômico neoliberal se aprofunda na região através de uma agenda de privatizações, redução de barreiras alfandegárias e flexibilização das relações de trabalho, observa-se o aumento do abismo entre o que o modelo econômico prometia em termos de desenvolvimento da região e a realidade de ampliação da desigualdade, entrada de um grande contingente de indivíduos para a miséria e intensificação da exploração para a maioria da população latino-americana (Rosenmann, 2024).
Em relação ao processo de implantação do projeto neoliberal no Brasil, Filgueiras (2006) destaca três momentos principais, a partir do início da década de 1990: uma etapa inicial de ruptura com o MSI – Modelo de Substituição de Importações, que dependia de um mercado consumidor interno aquecido, e a execução das primeiras ações concretas de natureza neoliberal (abertura de mercado e privatizações) no governo Collor; uma segunda fase de aprofundamento e ampliação do modelo econômico-social neoliberal no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso (avanço das privatizações, flexibilização da legislação trabalhista e desindustrialização); e uma terceira fase de aperfeiçoamento e adequação ao novo modelo que consolida a hegemonia do capital financeiro no segundo governo FHC e no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (aprovação da reforma na previdência, instituição de Parcerias Público-Privado (PPP) e política de superávit primário que reduz a capacidade de investimento do Estado), que dá mais um passo rumo à destruição de direitos com a reforma trabalhista do governo de Michel Temer.
Desse modo, o avanço do trabalho precarizado mediado por plataformas digitais vem na esteira de uma série de medidas de natureza neoliberais que precarizam as condições de trabalho através de formas de contratação instáveis e informais, que implicam em prolongamento da jornada de trabalho, redução de renda média, retirada de direitos trabalhistas e expansão da informalidade no mercado de trabalho brasileiro, o que enfraquece a atividade sindical e sua capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora.
Antunes (2020) acrescenta que, no atual estágio do capitalismo, a redução de empregos formais associada ao aumento do contingente de trabalhadores em nível global empurra milhões de homens e mulheres para modalidades instáveis e precárias de trabalho, ou para o desemprego. Ademais, mesmo aqueles que conseguem se manter empregados sofrem com a dilapidação de seus direitos sociais e conquistas históricas. Sob práticas corrosivas do capitalismo neoliberal, no século XXI, frente a uma economia subordinada ao império do capital financeiro, a busca das empresas para expandir seus lucros a qualquer custo impõe “aos trabalhadores e trabalhadoras a pressão pela maximização do tempo, pelas altas taxas de produtividade, pela redução dos custos” (Antunes, 2020, p. 33-34), ao mesmo tempo em que exigem disponibilidade quase integral e flexibilização dos contratos de trabalho.
Em suas análises sobre a comparação dos dados produzidos por PNAD anteriores e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: teletrabalho e trabalho por meio de plataformas digitais 2022, Carvalho e Nogueira (2024) buscam confrontar os efeitos de sentidos sobre o trabalho precarizado, exercido através de plataformas digitais, como suposto ganho de autonomia e liberdade para o trabalhador, com os resultados obtidos através das pesquisas realizadas pelo IBGE. Ao buscar avaliar o quanto a ascensão do trabalho mediado por aplicativos aprofunda a precarização das relações trabalhistas e intensifica a exploração dos trabalhadores do setor de transporte e de entregas, os pesquisadores destacam que a intensificação do trabalho precarizado tem gerado a redução da renda média dos trabalhadores, o nível de formalização, queda na contribuição previdenciária e aumento das jornadas de trabalho semanais.
No que concerne o impacto da "plataformização" sobre o número de motoristas ocupados no setor de transporte de passageiros, Carvalho e Nogueira (2024) ressaltam o aumento do número de trabalhadores no setor e seu impacto sobre a renda média dos motoristas. Na comparação entre 2015 e 2022, houve um aumento absoluto de 500 mil trabalhadores ocupados no setor devido à expansão do exercício de tal atividade por meio de plataformas. Ao reduzir o custo para exercer a atividade de motorista de passageiro, eliminando o gasto com aquisição de permissão pública municipal em comparação com os motoristas de táxi, o advento das plataformas digitais gerou uma drástica expansão do total de trabalhadores no setor e, consequentemente, o aumento da oferta do serviço, resultando "na queda da renda auferida pelos motoristas autônomos de todas as modalidades de transporte de passageiros" (Carvalho; Nogueira, 2024, p. 179).
A PNAD contínua de 2022, publicada pelo IBGE em 2023, também investiga o impacto da expansão do trabalho precarizado no setor de transportes sobre o recolhimento da contribuição previdenciária. Na comparação entre pesquisas realizadas pelo IBGE até 2015 e a de 2022, observa-se que o número de motorista de transporte de passageiros que contribui para Previdência Social caiu pela metade durante o período. Os pesquisadores analisam essa queda de contribuição ao notar que:
[...] até 2015, os motoristas de passageiros detinham uma taxa de contribuição previdenciária muito superior aos demais grupos considerados. Especificamente em 2015, pouco menos da metade dos motoristas de passageiros (47,8%) contribuía, em comparação com 28,6% dos trabalhadores por conta própria e 20,6% dos empregados sem carteira assinada. Após 2015, quando começam a se difundir os aplicativos de transporte, a cobertura previdenciária dos motoristas de passageiros se reduz quase pela metade, somente 24,8% dos trabalhadores em 2022 (Carvalho; Nogueira, 2014, p. 181).
Outro efeito da ascensão da economia de plataforma sobre os trabalhadores do setor de transporte de passageiros está relacionado ao aumento da carga horária de trabalho e à redução da renda. Se a PNAD Contínua de 2015 havia mostrado que a renda média dos taxistas era em torno de R$ 3.150,00, dados obtidos em 2022 indicam que a renda média dos motoristas de táxi caiu para R$ 2.400,00, se equiparando à renda média dos motoristas por aplicativo. Entretanto, vale destacar que para atingir renda semelhante à remuneração dos motoristas de táxi, o motorista por aplicativo precisa se submeter a uma jornada 20% maior: enquanto os taxistas trabalham em média 40,7 horas por semana, segundo a Pnad Contínua 2022, os motoristas que atuam por aplicativos trabalham 48,3 horas por semana para obter a mesma remuneração.
Outro dado que corrobora para essa diferença de carga horária e mostra como o trabalhador precarizado precisa se submeter a uma maior média de horas trabalhadas indica que enquanto 15,7% dos motoristas de táxi trabalhavam entre 48 e 60 horas, 32,5% dos motoristas por aplicativo cumprem esse volume de horas trabalhadas; 13% dos motoristas por aplicativo tinham carga horária superior a 60 horas semanais, frente a 4,4% dos motoristas de táxi.
Apesar do discurso midiático produzir efeito de sentidos para o trabalho precarizado através das plataformas digitais como empreendedorismo, no qual o trabalhador gozaria de autonomia e liberdade, os dados da PNAD Contínua 2022 sobre o nível de autonomia dos trabalhadores plataformizados em relação ao valor cobrado pelo serviço, prazo, definição de clientes e forma de pagamento mostraram que 98% dos motoristas por aplicativo admitem que o estabelecimento do valor a ser recebido é determinado pelas plataformas.
Ademais, 63,6% dos motoristas por aplicativo declararam que a jornada de trabalho é influenciada por bônus e/ou promoções realizadas pelo aplicativo; 42,7% mencionaram as ameaças e punições na definição da jornada; e 29,8%, a sugestão por turnos. Entretanto, vale destacar que, apesar de mencionarem práticas que evidenciam a condição de trabalho subordinado, 84% ainda consideram ter autonomia para determinar de forma independente suas jornadas de trabalho.
Carvalho e Nogueira (2024) destacam, assim, que a expansão do trabalho mediado por aplicativos tem provocado jornadas de trabalho mais longas, reduzido a contribuição previdenciária, gerado queda da renda média, e elevação do número de trabalhadores autônomos ou sem registro em carteira entre o grupo de trabalhadores que não exercem suas atividades por meio dos aplicativos. Segundo os pesquisadores,
O que os dados aqui analisados tornam evidente é uma crescente precarização das condições de trabalho. E, mais do que isso, uma situação na qual trabalhadores que estão submetidos a uma real condição de trabalho subordinado (e precarizado) reproduzem a narrativa (ou ideologia) que vem sendo amplamente difundida e se supõe ser “empreendedores de si mesmos” (Carvalho; Nogueira, 2024, p. 193).
Da perspectiva teórica que assumimos, compreendemos que essa identificação de parte dos trabalhadores por aplicativo com o discurso inscrito em uma formação discursiva neoliberal decorre do funcionamento ideológico do discurso.
Em diálogo com o pensamento althusseriano, Pêcheux ([1975] 2014) apresenta sua teoria “não-subjetivista da subjetividade”, que caracteriza os “processos de imposição/dissimulação que constituem o sujeito” (Pêcheux, [1975] 2014, p. 123). Nessa perspectiva, o sujeito é compreendido como efeito de duas estruturas-funcionamento, a ideologia e o inconsciente, que atuam sobre o sujeito e seu discurso, apagando seu funcionamento e produzindo uma rede de evidências. Indursky observa que:
Vale dizer: o sujeito que o fundador da Teoria da Análise do Discurso convoca é um sujeito que não está na origem do dizer, pois é duplamente afetado. Pessoalmente e socialmente. Na constituição de sua psiquê, este sujeito é dotado de inconsciente. E, em sua constituição social, ele é interpelado pela ideologia. É a partir deste laço entre inconsciente e ideologia que o sujeito da análise do discurso se constitui. É sob o efeito desta articulação que o sujeito da AD [Análise do Discurso] produz seu discurso. E esta é a natureza da subjetividade convocada por Pêcheux: uma subjetividade não-subjetiva. (Indursky, 2008, p. 2, itálicos do original)
Destarte, ao analisar o funcionamento do sujeito no discurso, Pêcheux ressalta que a “interpelação do indivíduo em sujeito de seu discurso se efetua pela identificação (do sujeito) com a formação discursiva que o domina” (Pêcheux, [1975] 2014). Essa identificação é fundadora da unidade imaginária que constitui o sujeito e tem seus alicerces assentados sobre elementos do interdiscurso reinscritos no discurso do próprio sujeito. Tais elementos correspondem ao “sempre-já-aí”, o pré-construído que institui para o sujeito sentidos para a realidade como evidência; e a articulação, compreendida como a relação do sujeito com o sentido que determina, no plano do interdiscurso, a dominação da forma-sujeito.
Contudo, não se trata de compreender a formação discursiva, aquilo que estabelece em uma formação ideológica dada o que pode e deve ser dito pelo sujeito em uma conjuntura socio-histórica, frente ao estado da luta de classes (Pêcheux, [1975] 2014), como um todo homogêneo e hermético, mas constituída por fronteiras porosas que possibilitam que outros saberes se infiltrem e produzam domínios de saber heterogêneos em relação a si mesmos.
O termo forma-sujeito foi apresentado por Althusser (1978) como a condição histórica do sujeito enquanto agente de suas práticas sociais. Na Análise de Discurso, a forma-sujeito corresponde à forma pela qual o sujeito do discurso se identifica com a formação ideológica que o domina. Desse modo, através de seu funcionamento, realiza-se a incorporação dos elementos do interdiscurso no intradiscurso de forma apagada para o sujeito (Pêcheux, [1975] 2014).
Orlandi (2022) ressalta que a forma-histórica do sujeito moderno em uma formação social capitalista é a forma-sujeito capitalista, instituída como sujeito jurídico que possui direitos e deveres, e dispõe de livre circulação social. As formas de individualização do sujeito jurídico estabelecidas pelo Estado, através de suas instituições e discursos, produzem "um indivíduo ao mesmo tempo responsável e dono de sua vontade, com direitos e deveres e direito de ir e vir" (Orlandi, 2022, p. 341). A partir dessa forma sujeito histórica, constituída pela interpelação do indivíduo em sujeito pela ideologia, os processos de identificação do sujeito se estabelecem na relação de identificação do sujeito com uma determinada formação discursiva, regida pela articulação simbólico-política que projeta o sujeito de seu lugar social para sua posição sujeito no discurso (posição-sujeito patrão, trabalhador, empreendedor, professor, aluno, jornalista etc.).
Em articulação com as condições de produção que possibilitam e atuam no dizer, na seção seguinte buscaremos empreender nossos gestos de análise sobre o funcionamento do discurso jornalístico na produção de efeitos de sentido para o trabalho precarizado, a partir das propostas teórico-metodológicas da Análise de Discurso materialista em relação ao processo de designação mobilizado no dizer sobre os motoristas por aplicativo; a relação do dizer com a memória discursiva, constituída sob a tensão entre movimentos de repetição e deslizamento de sentido; e a análise de como o funcionamento ideológico atua no discurso apagando o recrudescimento da exploração e a assimetria de forças entre o trabalhador e a empresa.
Das análises: sentidos em disputa no abismo neoliberal
A análise do discurso jornalístico sobre a precarização das relações trabalhistas na atualidade mostra como o funcionamento ideológico atua no dizer. Em matéria publicada no site da BBC News Brasil, em 29 de abril de 2024, o procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT) Ilan Fonseca, que tirou licença de quatro meses do MPT para realizar uma pesquisa etnográfica como motorista de Uber em Salvador, é entrevistado acerca da relação trabalhista entre o motorista que atua por plataforma digital e a empresa.
Para compreender os efeitos de sentidos produzidos sobre os motoristas de passageiros que atuam por plataformas digitais, concentraremos nossa análise inicial na resposta da Uber à equipe da BBC News Brasil.
SD1: Procurada pela BBC News Brasil, a Uber criticou a pesquisa de Fonseca e respondeu que "os motoristas parceiros não são empregados e nem prestam serviço à Uber".
Afirmou que são "profissionais independentes que contratam a tecnologia de intermediação de viagens oferecida pela empresa por meio do aplicativo". (BBC News Brasil, 2024, grifos nossos)
Observa-se na resposta encaminhada ao portal de notícias que a empresa utiliza a designação “motoristas parceiros” para se referir aos motoristas que atuam através da plataforma digital Uber, ao mesmo tempo em que os caracteriza como “profissionais independentes”.
O estudo dos processos de designação indica que os objetos de referência são construídos simbolicamente para/pelos sujeitos através do funcionamento da linguagem em contato com a realidade histórica, que não deve ser compreendida como realidade empírica, mas o real construído na materialidade do processo histórico na necessidade do sujeito de simbolizar o mundo através da linguagem. Destarte, através do processo de designação, o sujeito produz sentidos para o real a partir de um gesto de interpretação afetado pela relação da língua com a ideologia, sob determinadas condições de produção. Pois, segundo Guimarães:
O que uma expressão designa não é assim nem um modo de apresentação do objeto, nem uma significação reduzida a um valor no interior de um sistema simbólico. Designar é constituir significação como uma apreensão do real, que significa na linguagem na medida em que o dizer identifica este real para sujeitos. (Guimarães, 2017, p. 121)
Designar o sujeito na posição no discurso de sujeito-trabalhador como “motorista parceiro” produz efeito de evidência para os motoristas como sujeitos independentes, sem laços de subordinação e vínculos empregatícios com a empresa, gerando um efeito de falsa simetria de forças e posições sociais entre os trabalhadores e a empresa, que determina suas atribuições e o valor a ser pago por elas. A relação do termo determinante “parceiros” sobre o núcleo do sintagma nominal, “motoristas”, produz um efeito de apagamento sobre toda uma rede de memória relacionada à exploração da mão de obra pelos donos dos meios de produção que aferem mais-valor sobre o trabalho da classe operária.
A determinação que o adjetivo “parceiro” exerce, ao mesmo tempo em que refuta as relações de subordinação e exploração entre as classes sociais, representadas pelos motoristas e a empresa, produz uma nova memória para o sujeito-trabalhador, como parte de um grupo de “profissionais independentes”, que supostamente estaria livre dos laços de exploração entre empregador e empregado.
Essa nova rede de memória instaurada pelo processo de designação faz os sentidos produzidos e regularizados historicamente sobre os trabalhadores deslizarem para outra rede de sentidos, no qual as ligações evocadas pelo funcionamento da designação produzem efeitos de sentido para os motoristas como empreendedores, senhores de si e de suas escolhas. Há um efeito de desestabilização e reorganização da memória, proporcionado pela mudança nas condições de produção do discurso, que apaga as relações de vínculo e subordinação dos trabalhadores a quem explora sua força de trabalho através de um dispositivo tecnológico.
Desse modo, a designação “motoristas parceiros” não descreve ou funciona como um rótulo para os sujeitos trabalhadores, mas produz efeito de apagamento sobre a perda de direitos e vínculos empregatícios, e faz os sentidos sobre os trabalhadores deslizarem, gerando efeito de evidência para os motoristas de passageiros como “profissionais independentes”, não subordinados à empresa, que supostamente tem o poder de optar por não estabelecer vínculos contratuais com o empregador e preferem trocar direitos por benefícios temporários ou vantagens.
É também um processo de individualização das relações de trabalho que podemos depreender nas discussões que se colocam recentemente em nossa formação social, a respeito do projeto de lei que visa regulamentar o trabalho por aplicativo no Brasil. A tensão se marca na língua, na disputa de sentidos entre ser “emprego” ou ser “uma atividade autônoma”, como podemos observar na notícia da BBC, apresentada pelo G1, em setembro de 2023, quando a Uber foi condenada em 1ª instância, em processo ocorrido na 4ª Vara do Trabalho de São Paulo, a pagar indenização e contratar os motoristas, assumindo, assim, o vínculo trabalhista.
SD2: Trabalho e carreira
SD3: Motorista de Uber é empregado ou autônomo?
SD4: Os trabalhadores que atuam por meio dos aplicativos têm tanto características de uma categoria como de outra – eles estão na chamada "zona cinzenta", explica o economista Leonardo Rangel, pesquisador do Ipea com foco em trabalho e previdência, que analisou como mais de 15 países enquadram essa relação entre motoristas e empresas. (BBC, 2024, G1, grifos nossos)
Nas sequências discursivas recortadas da matéria do G1, é possível observarmos na materialidade linguística essa movência de sentidos, que se marca, por exemplo, na questão trazida como subtítulo no texto jornalístico: “Motorista de Uber é empregado ou autônomo?”. A essa questão, seguem-se explicações advindas da fala de um entrevistado, “pesquisador do Ipea com foco em trabalho e previdência”, que mantém a dualidade dos sentidos em sua explicação, em: “têm tanto características de uma categoria como de outra” (SD3), inscrevendo os “trabalhadores” naquilo que denomina de “zona cinzenta”, um lugar marcado pela indistinção; um não-lugar? Mas é a designação “trabalhadores” que se marca no dizer do especialista. A editoria em que a matéria jornalística é publicada também produz sentidos: “trabalho e carreira” (SD2). Como afirma Orlandi (2001, p. 82): “[...] ao longo do dizer, há toda uma margem de não-ditos que também significam.”. Inscrever a matéria jornalística em uma editoria denominada “trabalho e carreira” significa diferentemente de sua inscrição em outras editorias, como “economia e negócios”, por exemplo.
Com Orlandi (1996), compreendemos que a relação contraditória entre paráfrase e polissemia estrutura a linguagem. Nessa relação entre a reiteração do mesmo, paráfrase, e a produção da diferença, polissemia, subsiste a tensão constitutiva do processo de produção de sentidos. É através do trabalho da memória no dizer, na retomada de dizeres anteriores do interdiscurso, que os já-ditos que produzem sentido para o sujeito podem ser retomados para reiterar sentidos ou produzir deslizamento. Ou seja, somente através da relação do dizer com a memória, constituída e mobilizada pela ideologia, pode-se compreender a relação entre a reiteração parafrástica, que leva o discurso a retornar a um mesmo espaço de dizer (Orlandi, 2001), e o deslocamento polissêmico.
Embora o sujeito, sob efeito do funcionamento ideológico, tenha a necessidade de acreditar que domina e dá origem a seu dizer, a possibilidade do sentido poder ser sempre outro indica que a incompletude que marca a articulação entre ideologia e inconsciente sobre a materialidade da língua é sujeita à falha, ao equívoco. Destarte, é imprescindível observarmos que:
[...] a incompletude é a condição da linguagem: nem os sujeitos nem os sentidos, logo nem o discurso, já estão prontos e acabados. Eles estão sempre se fazendo, havendo um trabalho contínuo, um movimento constante do simbólico e da história. (Orlandi, 2001, p. 37)
Dessa forma, a tensão entre empregado e autônomo, trabalhador e empreendedor, está presente em outros elementos do discurso. O efeito de sentido sobre a atuação dos motoristas de passageiros por aplicativos como trabalho é ainda reafirmado na sequência da notícia, que traz em destaque a imagem de uma carteira de trabalho, como podemos observar na Figura 1.
Figura 1: Print-screen da tela com a matéria jornalística em análise.
Disponível em: https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2023/09/15/o-que-muda-para-motorista-de-uber-apos-justica-determinar-contratacao.ghtml. Acesso em: 22 ago. 2024.
A imagem da carteira de trabalho comparece na matéria jornalística acompanhando o hiperlink para um “saiba mais”: “Entenda as diferenças entre contribuição assistencial e imposto sindical”, questão que se coloca para o trabalhador com contrato de trabalho via CLT e não para o autônomo. Entendemos que esse direcionamento de sentidos é determinado pelas condições de produção da notícia, em um momento em que a Justiça interpreta a relação desses trabalhadores com o aplicativo como sendo uma relação de trabalho efetivamente.
É interessante observar também que, ao longo da exibição da matéria no Portal G1, são exibidos anúncios diversos, que se movem na tela, mudando de posição à medida que rolamos o cursor para leitura do texto jornalístico. Um dos anúncios que eventualmente aparece em meio à matéria inscrita na editoria de “trabalho e carreira” é o de uma máquina de cartões, objeto a ser utilizado por trabalhadores autônomos. No fio do discurso, a matéria, ao trazer a questão “Motorista de Uber é empregado ao autônomo?”, faz comparecer no dizer também efeitos de sentidos para o “ser autônomo”, logo, “empreendedor”, logo, um possível consumidor de máquina de cartões.
Ao tratar da memória no funcionamento do discurso, Pêcheux ([1983] 2010, p. 56) afirma que ela não pode ser pensada “como uma esfera plena”, marcada pela homogeneidade dos sentidos, “ao modo de um reservatório”; trata-se de “um espaço móvel de divisões, de disjunções, de deslocamentos e de retomadas, de conflitos de regularização... Um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra-discursos.” (Pêcheux, [1983] 2010, p. 56). O que temos, nesses dizeres, são esses desdobramentos, deslocamentos e retomadas de sentidos no dizer sobre o trabalho e o trabalhador em nossa formação social.
Podemos seguir acompanhando essas disputas de sentido no modo como foi discursivizada uma mesma entrevista em diferentes portais de notícias. Trata-se da entrevista, abordada no início deste artigo, de Ilan Fonseca, procurador do Ministério Público do Trabalho, autor da tese “Dirigindo Uber: um estudo da subordinação jurídica a partir da etnografia”. Parte das reflexões teóricas trazidas na tese decorrem da experiência de seu autor que, como vimos, durante um período de licença de quatro meses de seu trabalho como procurador, atuou como motorista de Uber nas ruas da cidade de Salvador. Vejamos como a entrevista circula em diferentes portais de notícias:
SD5: Procurador que foi Uber por 4 meses na RMS faz descoberta preocupante
Magistrado vive a condição de um motorista de aplicativo para avaliar autonomia do trabalhador (Souza, 2024, A tarde, negritos do original)
SD6: O procurador que foi Uber por 4 meses em Salvador: ‘Não tive sensação de ser meu próprio chefe’ (Alegretti, 2024, BBC News Brasil, negritos do original)
SD7: ‘Projeto do governo é trágico’, diz procurador que fez 352 horas como Uber (Barros, 2024, UOL, negritos do original)
No conjunto de notícias sobre a entrevista do procurador, são possíveis vários gestos de análise. No título das duas primeiras notícias (SD5 e SD6), podemos dizer que temos o foco no dizer do procurador: “faz descoberta preocupante”; “Não tive a sensação de ser meu próprio chefe”, que apontam para a tese propriamente do pesquisador, apresentada em todas as matérias: a subordinação jurídica do trabalhador à Uber e, por isso, um efetivo vínculo de trabalho entre a empresa de aplicativo e o motorista; e não uma imaginária independência do motorista, como sustenta a empresa. Na circulação da entrevista no Portal UOL, no entanto, o foco é encaminhado para a legislação que visa regulamentar o trabalho por aplicativo no Brasil: “Projeto do governo é trágico”. “Trágico” produz efeitos de sentidos de algo questionável, a ser evitado. Na memória discursiva, inscreve-se ao lado de dizeres muito correntes entre muitos motoristas, que ameaçados pela empresa de aplicativo com a perda de sua atividade remunerada, muitas vezes a única de que dispõe, passou a ver na regulamentação da atividade um risco, algo a ser evitado; e não uma proteção legal ao trabalhador, como deveria ser. Na entrevista do procurador, no entanto, ele de fato afirma que o “projeto do governo é trágico”, mas em uma outra direção de sentidos:
SD8: O projeto de lei apresentado foi trágico. Eu tive a possibilidade de participar, pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), do grupo de trabalho [montado pelo governo federal, em Brasília, para tentar costurar um acordo com representantes de empresas e trabalhadores]. A gente tinha muita esperança de que fosse um projeto, ainda que não houvesse reconhecimento do vínculo de emprego, que conseguisse atender aos interesses da categoria dos motoristas. Parece que as representações [dos trabalhadores] que ali estiveram não tinham essa legitimidade em relação a toda a base da categoria, e o projeto parece atender 100% os interesses das plataformas.
[...]
Quando a gente começa a acompanhar as redes sociais dos motoristas, fica bem claro que eles querem a limitação dos poderes das plataformas. Eles querem transparência, querem saber quais são os critérios de direcionamento das corridas. Querem saber os motivos pelos quais eles estão sendo banidos. Querem melhores valores pelas corridas. Então, querem que, de alguma forma, governo e autoridades comecem a limitar todos os poderes, muitos deles arbitrários, que as plataformas impõem hoje a essa categoria. (Barros, 2024, UOL, grifos nossos)
O projeto é qualificado como trágico pelo procurador porque atende mais aos interesses das plataformas que aos dos trabalhadores; e o procurador é a favor de que haja a regulamentação da atividade como um trabalho; mas isso só ficamos sabendo com a leitura na íntegra da entrevista. É interessante notar, no entanto, que a entrevista ao Portal UOL circula praticamente um mês antes, pautando, assim, os demais portais, o que também expõe contradições: a tese do procurador, tornada livro, possivelmente só passa a circular mais intensamente em outros sites de notícias depois de “descoberta” por um portal vinculado a uma “grande mídia”1, ainda que nesse espaço gestos de interpretação outros sejam inscritos a partir dela.
No exame do funcionamento da prática discursiva jornalística, observa-se que o processo de encadeamento no qual os eventos são construídos discursivamente produz uma perspectiva sobre a realidade que parece evidente, imparcial e objetiva. Entretanto, a produção de sentidos no discurso jornalístico não se constitui unilateralmente, mas através de um jogo de influências desigual entre os jornalistas, os leitores e a instituição, interpelados pela ideologia, e afetado pelas condições socio-históricas.2
Mariani (1998) caracteriza o discurso jornalístico como um discurso sobre, no qual o sujeito, na posição no discurso de sujeito-jornalista, constrói um efeito de distanciamento em relação ao objeto sobre o qual fala, e se posiciona para o leitor sob a representação imaginária de um observador imparcial da realidade. Tal representação possibilita ao jornalista emitir julgamento, opinião, explicar os fatos etc., sem que sua credibilidade seja questionada, pois o profissional de imprensa falaria do lugar da isenção, através de um efeito de distanciamento.
A construção discursiva supostamente objetiva e distanciada do objeto, a heterogeneidade de dizeres citados que comparecem no discurso, os recursos didáticos utilizados para explicar o acontecimento e o encadeamento causal entre os eventos que remetem a uma memória coletiva que ressoa no dizer contribuem para construir um discurso sobre a verdade/realidade dos fatos que apaga a interpretação.
Na análise do discurso jornalístico que constitui o corpus do presente artigo, observa-se que um efeito de isenção se produz com o apagamento do discurso do eu do sujeito na posição sujeito-jornalista, se apresentando como se fosse apenas um mediador entre duas alteridades. Desse modo, apaga-se para o leitor que tanto a pauta quanto a escolha das fontes são resultado de práticas e rotinas profissionais institucionalizadas, que demarcam a adesão a uma determinada formação discursiva. A presença de marcas de discursos outros no texto jornalístico, no que Authier-Revuz (1990) designa como heterogeneidade enunciativa mostrada, possibilita a análise do efeito gerado por essas outras vozes na sequência do discurso.
Authier-Revuz (1990) acrescenta que todo dizer é construído por uma heterogeneidade que lhe constitui, que se estabelece na relação entre o Real e o Simbólico, entre os dizeres outros e o discurso do sujeito. Embora essa relação seja apagada para o sujeito, é essa articulação que torna o dizer possível. Segundo a pesquisadora, quando a constituição discursiva ganha materialidade delimitada no fio do discurso, seu funcionamento produz demarcações de fronteiras e limites, que, por relações de identificação ou diferenciação, constituem o discurso, e, concomitantemente, estabelecem uma posição do sujeito enunciador como elemento exterior ao seu dizer.
Authier-Revuz (1990) destaca que as formas de heterogeneidade mostrada também são constitutivas, pois, ao colocar o outro no discurso de forma delimitada e marcada, o sujeito reforça o discurso do eu enquanto sujeito enunciador. No discurso jornalístico, por exemplo, busca-se trazer o discurso do outro como instância distinta do eu para delimitar, no discurso, os limites que esse outro propicia, e produzir um efeito de isenção e independência do sujeito-jornalista.
Vejamos, nas sequências discursivas a seguir, como a regularidade do uso de marcadores de negação no discurso jornalístico produz sentido sobre o sujeito na posição de sujeito-jornalista e os motoristas por aplicativo:
SD9: “A minha conclusão é que os motoristas são empregados, subordinados à plataforma e que não têm praticamente nenhuma autonomia. É uma subordinação muito mais intensa do que a que ocorre em outros tipos de atividades. A única autonomia que existe é a de responder a um chamado no aplicativo”, afirma o procurador. (A tarde, 2024, grifos nossos)
SD10: Procurada pela BBC News Brasil, a Uber criticou a pesquisa de Fonseca e respondeu que "os motoristas parceiros não são empregados e nem prestam serviço à Uber".
Afirmou que são "profissionais independentes que contratam a tecnologia de intermediação de viagens oferecida pela empresa por meio do aplicativo". (BBC News, 2024, grifos nossos)
SD11: O STF está em vias de julgar a existência de vínculo empregatício entre aplicativos e motoristas. O argumento central das plataformas é de que não existe subordinação e de que o motorista é livre para fazer o seu próprio horário. Qual é sua avaliação? (Uol, 2024, grifos nossos)
Na SD9 e SD10, o uso do discurso direto demarcado por aspas já produz um efeito de separação e independência sobre o dizer do outro que o sujeito-jornalista busca destacar. Desse modo, ao demarcar o discurso do procurador na SD9 e o discurso da empresa Uber na SD10, opera-se uma articulação com a exterioridade que constitui o dizer. Dessa forma, o sujeito-jornalista se coloca na posição de um observador, “juiz, comentador de seu próprio dizer” (Authier-Revuz, 1990, p. 32).
A análise das heterogeneidades do discurso também possibilita identificar as relações entre discursos que transitam entre/ou por fora das fronteiras porosas das formações discursivas, que podem se contradizer, reiterar e/ou levar a deslizamentos de sentido. No gesto de análise que faremos a seguir, buscaremos apreender a relação dessas diversas vozes, discursos, através do uso dos marcadores de negação.
Indursky (1990) propõe uma distinção entre dois funcionamentos discursivos da negação: a denegação e a negação polêmica. A pesquisadora discute a diferença entre esses dois tipos de construções negativas a partir dos estudos de Ducrot, em 1980 e 1987, sobre o tema, ao construir sua teoria da polifonia. Na primeira, há a refutação ao discurso do outro ao estabelecer uma oposição a seu “enunciado e/ou pressupostos” (Indursky, 1990, p. 117); enquanto na segunda, há uma encenação de um debate entre dizeres distintos que vinculam posicionamentos antagônicos.
Vale ainda esclarecer que, para a Análise de Discurso materialista, as posições antagônicas identificadas remetem a posições sujeito inscritos em formações discursivas antagônicas. Não se trata de um antagonismo entre sujeitos, mas entre práticas sociais construídas na historicidade (Indursky, 1990).
Nas três sequências discursivas destacadas, podemos, através da inserção da locução ao contrário, identificar essas posições antagônicas no discurso:
A minha conclusão é que os motoristas são empregados, subordinados à plataforma e que não têm praticamente nenhuma autonomia, ao contrário, sua relação com a plataforma é de total dependência e subordinação.
Os motoristas parceiros não são empregados e nem prestam serviço à Uber, ao contrário, são profissionais independentes.
O argumento central das plataformas é de que não existe subordinação, ao contrário, o motorista é um empreendedor livre.
Dessa forma, podemos identificar, nas três sequências discursivas, um antagonismo entre posições sujeito inscritas em formações discursivas antagônicas: uma formação discursiva pró direitos trabalhistas, que defende as garantias legais dos motoristas mediante a constatação dos vínculos de subordinação entre os trabalhadores precarizados e a Uber; e uma formação discursiva pró empresa, que argumenta não haver laços de subordinação entre os motoristas e a empresa, uma vez que os motoristas são discursizados como empreendedores, livres e autônomos, que contratariam os serviços da Uber através do aplicativo digital.
Para fechar…
No percurso que aqui empreendemos, nos voltamos ao modo como se dão os processos de produção de sentidos em nossa formação social sobre o trabalho e o trabalhador no discurso midiático sobre a uberização; processos que se marcam na língua, em designações, por exemplo, e em disputas de sentidos naquilo que se diz ou não a respeito do trabalhador e das relações de trabalho, na atual conjuntura socio-histórica. Para fecharmos essas reflexões teórico-analíticas, fazemos uma última parada no modo como essas disputas de sentidos vão produzir efeitos na própria língua falada no Brasil, que entendemos, a partir de Orlandi e Souza, como uma língua imaginária, língua isolada de seus aspectos sócio-históricos e disciplinarizada por normas e coerções que a tornam um “objeto-ficção” a-histórico, que opera como um sistema sem falhas, negando o movimento próprio do funcionamento discursivo (Orlandi; Souza, 1988).
No site da Academia Brasileira de Letras, há um espaço denominado “Novas palavras”, assim definido:
A Academia Brasileira de Letras apresenta palavras ou expressões que passaram a ter uso corrente na língua portuguesa, podendo ser neologismos, empréstimos linguísticos ou mesmo vocábulos que, apesar de já existirem há algum tempo na língua, têm sido usados com mais frequência ou com um novo sentido nos dias de hoje.
A criação, o uso e a difusão de uma nova palavra ou expressão vêm da necessidade que temos de nomear algo que faz parte da nossa realidade ou que nossa inteligência e percepção foram capazes de identificar com mais intensidade.
Conhecer o significado de novas palavras enriquece nosso vocabulário e nos faz mergulhar na atmosfera intelectual em que vivemos. Mais do que isso, contribui para o pleno desenvolvimento de nossa capacidade de comunicação, amplia a compreensão que temos do mundo e nos torna aptos a identificar problemas, buscar soluções e sermos agentes de mudança em prol de uma sociedade mais humana, ética e justa.3
Dentre as “Novas palavras”, encontra-se “uberização”, apresentada aos modos de um dicionário: com indicação de classe gramatical, palavras relacionadas, definição e exemplos de usos. Na definição, temos:
Definição:
Termo usado para indicar a transição para o modelo de negócio sob demanda caracterizado pela relação informal de trabalho, que funciona por meio de um aplicativo (plataforma de economia colaborativa), criado e gerenciado por uma empresa de tecnologia que conecta os fornecedores de serviços diretamente aos clientes, a custos baixos e alta eficiência; por extensão, designa a adoção deste tipo de relação (na esfera econômica, política, etc.), com as implicações suscitadas por este novo formato. (Também usado com sentido metafórico.) [O termo é derivado do nome da empresa Uber Technologies Inc., uma multinacional americana que introduziu este novo tipo de negócio em vários setores e serviços.4
Mobilizando as reflexões que se dão nos campos teóricos da Análise do Discurso e da História das Ideias Linguísticas, Nunes (2006, p. 18) afirma que: “Como todo discurso, o dicionário tem uma história, ele constrói e atualiza uma memória, reproduz e desloca sentidos, inscrevendo-se no horizonte dos dizeres historicamente constituídos.”. É assim que a definição de “uberização”, no site da Academia Brasileira de Letras, traz um dizer sobre o processo que o inscreve como uma “relação informal de trabalho”, “a custos baixos e alta eficiência”; um discurso assumido pela própria empresa a cuja origem a palavra se relaciona. A abertura a sentidos outros, no entanto, ocorre, se marcando no espaço destinado aos exemplos de usos, com as menções a: “uberização da política”, “uberização dos empregos”, “uberização da medicina”, “uberização da vida” ... e que não produzem efeitos de sentidos associados “a custos baixos e alta eficiência”.
Os processos de produção de efeitos de sentidos se dão no movimento de inscrição da língua na história; e essa relação não é sem consequências para os sujeitos e a própria língua.
REFERÊNCIAS
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Data de Recebimento: 02/09/2024
Data de Aprovação: 22/11/2024
1 Compreendemos “grande mídia” a partir de Dela-Silva (2018), como a mídia tradicional, que se caracteriza por sua ampla circulação e poderio econômico, vinculada a grandes conglomerados midiáticos.
2 Em análise acerca do discurso jornalístico em seu funcionamento na atual conjuntura socio-histórica, Flores (2022, p. 24) afirma que: “a mídia, ao produzir essas reportagens, o faz a partir das ‘suas verdades’ que beiram ao cinismo, pois omite informações e vão determinando e legitimando, no funcionamento do discurso jornalístico, a dominação da classe burguesa e o discurso neoliberal.” Embora a autora esteja se dedicando à análise de um outro corpus, entendemos que tal funcionamento também se marca no material que ora analisamos, nas diferentes tomadas de posição assumidas pelos sites de notícia em tela.
3 Disponível em: https://www.academia.org.br/nossa-lingua/sobre-novas-palavras (Acessado em 10/08/2024).
4 Disponível em: https://www.academia.org.br/nossa-lingua/nova-palavra/uberizacao (Acessado em: 10/08/2024).