Introdução
A pandemia da COVID-19 produziu ressonâncias nos mais diversos campos do saber e da experiência humana, de modo que é possível afirmar que nada permaneceu inerte a esse movimento global. Os efeitos da pandemia puderam ser narrados desde o início, o que vem sendo acompanhado por repercussões a médio e a longo prazos. Muitos estudos na perspectiva discursiva foram produzidos nesse contexto, investigações que tensionavam os efeitos dos discursos de autoridades, das fake news circulantes, das ideologias na interface entre a saúde e o político, em um campo vasto e que assegurou à linguagem a potencialidade de refletir sobre um cenário em constante mudança marcado pela (des)esperança (Scorsolini-Comin; Bertolino; Pacífico, 2024). O presente estudo tem como contexto de análise os efeitos de sentido sobre a pandemia, sobretudo no que se refere ao seu atravessamento com o espaço urbano, como apresentaremos mais detidamente a seguir.
Na perspectiva da análise do discurso pecheutiana, a AD, o espaço urbano é um “espaço material concreto que funciona como um sítio de significação que demanda gestos de interpretação particulares. Um espaço simbólico trabalhado em/pela história, um espaço de sujeitos e de significantes” (Orlandi, 2001, p. 186). É no espaço da cidade que o simbólico e o político se articulam, o que nos habilita a considerar, nessa perspectiva teórica, que não existe cidade sem a dimensão do político.
O sentido do político, neste estudo, ultrapassa uma dimensão de referência ao que, muitas vezes, no senso comum, circula como sendo dessa ordem: disputas entre políticos, corrupção, sentidos fixos que naturalizam a política como um terreno de permanência de privilégios e de poucas mudanças, de um campo do qual a população encontra-se apartada. Para além desses sentidos, é importante enunciar a dimensão política que atravessa nossos discursos, o que incide, de modo particular, no espaço público.
É no urbano que emergem falas desorganizadas que significam lugares em que o sentido falta, em que não há um sentido de completude, mas algo sempre por ser dito. Assim como argumenta Orlandi (2001), os processos de significação atingem, ao mesmo tempo, a ordem do discurso e a organização social urbana. O espaço urbano é um palco do conflito social, das rupturas políticas, históricas e discursivas, não representando um discurso social homogêneo, mas, justamente, disperso, em consonância com a noção de sujeito cindido trazido pela psicanálise e adotado pela AD.
Esse sujeito não emerge como alguém que apenas se sujeita a esse espaço, como se fosse passivo aos discursos que circulam nesse território de impermanência. Falamos, pois, em um sujeito que se enquadra na posição sujeito-urbano. Assim, é mister que busquemos, a todo momento, responder: como ele significa a cidade e como ele se significa na cidade? Isso evoca a necessidade de compreendermos que o sujeito se situa na opacidade dos sentidos circulantes pelo urbano, estando permanentemente afetado pelo político que circula, que dá forma e que afeta o dizer citadino.
Ainda segundo Orlandi (2001), é importante considerar o efeito de ilusão segundo o qual a cidade é homogênea. Há que se considerar que diferentes discursos circulam nesse espaço. Assim, temos o discurso do urbanista, do Estado, do senso comum, formando um discurso indistinto e esvaziado sobre o urbano em sua materialidade. A autora menciona diversos exemplos que nos levam a considerar o urbano como espaço justamente heterogêneo e polissêmico, entre eles: (a) a localização centro versus periferia – o que pode ser discursivizado no centro e nas periferias?; (b) em que consistem as políticas de “limpeza” dos espaços urbanos, quem deve ser excluído nessa limpeza?; (c) verticalização das relações sociais, reforçando a assimetria e a dominação de uma classe sobre a outra.
Considerando esses apontamentos, o espaço urbano não se constitui como algo neutro e apartado da realidade social, pelo contrário. No contexto da pandemia da COVID-19 (2020-2023), diferentes efeitos de sentido puderam ser tensionados, tendo como palco o tecido urbano. Isso porque as recomendações sanitárias produzidas, sobretudo, no início da pandemia, período no qual ainda não tínhamos acesso à vacinação, tanto no Brasil como no exterior, recomendavam a adoção de medidas de restrição à circulação de pessoas no espaço público, o que nos leva à possibilidade de pensarmos nos sentidos sobre circulação, aglomeração, distanciamento e isolamento social em uma perspectiva discursiva. Com as ações de isolamento e distanciamento acionadas como medidas para mitigar a disseminação do vírus SARS-CoV-2, houve a sensação de um espaço urbano maior, inabitado: para onde foram as pessoas, os carros, o movimento típico de uma cidade considerada movimentada?
Emergem, nesse contexto, os sentidos de rua como risco, contato com risco, o estar junto como um risco. Vemos, portanto, que os discursos continuam a ser produzidos na rua, sobre a rua, com a rua. A rua, nesse domínio, é reformulada como um espaço aberto e não preenchido na pandemia, espaço da deriva, do não-saber, que permite a falha, o equívoco. Pensando juntamente com Orlandi, emerge a necessidade de “restituir à cidade sua falta de sentido” (Orlandi, 2001, p. 191) como forma de combater o esvaziamento do sentido da cidadania instaurado, pois, com o trânsito pandêmico.
A AD coloca-se na contramão do silenciamento. Assim, é preciso dar lugar ao impossível, à indistinção, à ambiguidade, à hesitação do sujeito entre um sentido e outro, entre o público e o privado, entre a individualização e a socialização. Os gestos de interpretação são o recorte que produz a textualização, a formulação. Quando pensamos a cidade e a noção de sujeito adotada pela AD, observamos que há a fragmentação não apenas desse sujeito, mas da cidade, o que pode ser observado por meio de flashes, sentidos fluidos em trânsito, flagrantes. É o caso de relembrar, nesse período pandêmico, as imagens veiculadas nos noticiários que davam destaque às cidades outrora movimentadas que, em decorrência das políticas de isolamento e distanciamento, também discursivizadas como o “Fique em casa” (Santana; Pimenta; Antunes, 2021), ficavam esvaziadas, com um movimento bastante reduzido e, portanto, atípico.
É nesse contexto que podemos refletir sobre uma indistinção entre o corpo do sujeito (isolado, distanciado, sem contato com o outro, sem poder tocar o outro) e o corpo da cidade (inabitada, sem circulação). Frente a esse panorama, o objetivo do presente estudo é discutir as implicações do discurso político na composição de duas formulações presentes no espaço urbano do município de Ribeirão Preto, interior do estado de São Paulo.
A escolha desse cenário deve-se ao fato de esse município ter tido grande importância no contexto do enfrentamento à pandemia da COVID-19 (2020-2023), destacando-se como um polo de produção de saúde, tanto em termos da assistência prestada, das pesquisas desenvolvidas e da formação de profissionais de saúde em níveis de graduação e de pós-graduação. É na cidade de Ribeirão Preto, por exemplo, que se localiza um dos campus da Universidade de São Paulo, a USP, com diversos cursos de graduação e de pós-graduação na área de saúde, sendo uma referência nacional e internacional tanto na assistência quanto na pesquisa e na inovação nesse campo.
Especificamente, duas formulações serão analisadas mais detidamente, formando o corpus. A primeira delas refere-se ao slogan da administração municipal (2017-2020 e 2021-2024), que nomeia a cidade como “global e acolhedora”. A segunda formulação refere-se à homenagem prestada aos profissionais de saúde na nomeação de um viaduto, “Profissionais da Saúde”, inaugurado no ano de 2021, ou seja, em meio ao trânsito pandêmico. Serão discutidos, no presente ensaio, os efeitos de sentido produzidos por essas nomeações, bem como suas implicações para pensarmos o discurso no espaço urbano na sua interface com o político e, também, o modo como o discurso sanitário da pandemia atravessou o urbano.
Percurso analítico
Analisemos, primeiramente, o slogan da administração municipal da cidade de Ribeirão Preto, no período de 2021-2024: “Ribeirão Preto: global e acolhedora”. Há que se considerar que o governo nesse quadriênio foi reeleito, de modo que o mesmo governo ocupa o poder na cidade desde 2017. Este slogan está representado na Figura 1, a seguir.
Figura 1: Slogan da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto (Gestão 2021-2024)

Fonte: Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto.
Segundo Orlandi (2001), as ações governamentais e as políticas públicas visam a produzir no urbano, em alguma medida, o sentido da uniformização, da organização, da globalização, da normatividade, do politicamente correto. Esses sentidos produzem, como efeito, a noção de regularidade, de estabilidade, em que o espaço público encontra-se cuidado, seguro, no qual as pessoas podem circular, habitar e vivenciar uma cidade considerada organizada. No entanto, ao analisarmos os discursos circulantes nesse espaço, observamos que tais noções de estabilidade e de ordenação são recusadas pela cidade, que apresenta o dissenso, a diferença, a des-transformação. De modo similar, devemos considerar que a opinião pública não é consensual, é atravessada pela divergência.
Ainda para Orlandi (2001), existe um “imaginário urbanizado” que se refere ao espaço do controle de sentidos, da organização dos sentidos, não permitindo o conflito. Um exemplo desse movimento é o discurso higienista, da limpeza, da fantasia da transparência, ao retirar a população em situação de rua das “vistas” da população. Ao se criarem barreiras para a circulação e a permanência das pessoas em situação de rua em determinados pontos da cidade, opera-se a ilusão de que essa população não circula nesse espaço e, como passa a não ser mais vista, em alguma medida, de que esse espaço não contém o dissenso, o conflito, o efeito de ação pública ineficaz, que não está preparada para acolher a população que mais necessita de ações de acolhimento.
O slogan, ao formular uma cidade “global”, produz, como efeito, a uniformização das políticas públicas, como se elas atendessem a todos e todas, homogeneizando esses sujeitos. Assim, constrói-se a ilusão de que todos os sujeitos fazem o mesmo uso do espaço urbano, circulam nos mesmos territórios, acessam os mesmos recursos, usufruem dos mesmos benefícios e são alçados à condição de quem pode ter, de fato, seus direitos respeitados no espaço urbano, de que possuem, pois, um “lugar” nesse espaço “global e acolhedor”.
Em termos discursivos, no entanto, a noção de lugar ultrapassa o sentido geográfico, e nos impõe a necessidade de refletir sobre os diferentes lugares e posições que podem ser ocupados pelo sujeito ao narrar sobre a sua relação com o espaço urbano. Isso pressupõe acessar os diferentes atravessamentos desse sujeito que consideram, por exemplo, a sua posição social, a sua cor de pele, o bairro em que reside, os espaços urbanos pelos quais circula e as diversas assimetrias sociais que o interpelam.
Considerando esses aspectos, torna-se impossível ao espaço urbano, à cidade, perceber-se ou narrar-se como da ordem do “global”. A expressão “global” carrega consigo o efeito da uniformidade, da inclusão, de uma visão panorâmica em que todos e todas fazem parte e não se distinguem. Amparados na perspectiva trazida por Orlandi (2001) em relação à discursivização do espaço urbano, seria possível uma nomeação capaz de capturar, pois, o sentido de uniformidade e de abrangência global? Sigamos nossa argumentação.
Ainda em termos dos efeitos de sentidos produzidos pela formulação “global”, há que se considerar que a cidade de Ribeirão Preto é um polo importante do agronegócio nacional. Ainda, é uma cidade que recebe negociadores internacionais, mobilizando investimentos, captação de recursos e inovação no setor agropecuário. É nesse município que se realiza, anualmente, a Agrishow, o maior evento de agronegócio do país. Em que pese a necessidade de atrair cada vez mais investimentos externos para a produção de tecnologias no campo, por exemplo, a formulação “global” articula-se à necessidade de internacionalização, de estabelecimento de um diálogo para além da realidade nacional, de rompimento de fronteiras, de possibilidade de incluir a cidade de Ribeirão Preto no cenário mundial do agronegócio, catapultando, com isso, as representações caras à ideologia dominante que defende o crescimento e desenvolvimento do município, em atenção aos objetivos da administração municipal.
Essa globalização não envolve apenas perspectivas de crescimento econômico, mas está atrelada, de modo indissociável, à política não só brasileira, como mundial. É nesse sentido que a feira de agronegócio dialoga, politicamente, com movimentos mais conservadores, alinhados à direita e à extrema-direita, como discutido por Pompéia (2024) no contexto da ascensão da figura do ex-presidente Jair Bolsonaro (2018-2022), como uma figura importante nesse evento mesmo depois do fim do seu mandato no executivo. A feira, nesse sentido, tem funcionado como um palco no qual os discursos políticos encontram um lugar e possuem uma determinada representação, nesse caso, orientada à extrema-direita e ao conservadorismo. Embora não seja o objetivo do presente ensaio tensionar esses aspectos e o evento aqui ilustrado, é mister considerar que essa dimensão política inerente à feira também tem contribuído para asseverar o seu caráter global, dialogando com lideranças internacionais também alinhadas à extrema-direita e ao neoliberalismo. Vemos, portanto, que o sentido “global” pode ser indiciado por meio de diferentes caminhos, nem sempre associados a algo considerado irrestritamente “acolhedor” e inclusivo.
A tentativa de formulação da cidade de Ribeirão Preto como “global”, no entanto, não é um movimento recente. Herdeira de um passado ligado ao cultivo de café, Ribeirão Preto já foi conhecida como a “Califórnia” brasileira (Gomes, 2011) devido à sua importância mundial no cultivo do grão. No entanto, após a crise de 1929, essa alcunha cedeu espaço a outras formulações. Mesmo assim, há que se problematizar que os enunciados nem sempre são substituídos, mas pertencem a uma memória discursiva atualizada, por exemplo, no atual contexto de referência do setor do agronegócio.
Além disso, uma cidade discursivizada como “acolhedora” seria justamente aquela capaz de incluir todos e todas em suas políticas de habitação, de acessibilidade e de mobilidade urbana, por exemplo. Mas isso seria possível, de fato? Haveria espaço para uma administração homogeneizante? Observamos, portanto, que o slogan pressupõe uma ilusão de transparência, de uniformidade e de abrangência que corrompe o espaço urbano como um território do porvir, do dissenso, do conflito, do caos, da tentativa de permanente compreensão de sua dinamicidade.
A produção de um slogan público como o que está sendo analisado no presente estudo atende a diferentes interesses da ordem do político. Ao formular que uma cidade acolhe, mobilizam-se diferentes efeitos, sobretudo de tonalidades favoráveis à administração pública. Toda cidade, não importa o seu tamanho, goza de prestígio ao anunciar-se como acolhedora. O sentido de acolhedor nem sempre é trazido no espaço urbano. É comum, por exemplo, as verbalizações que atribuem ao urbano, sobretudo em grandes cidades, o efeito de desacolhimento, de padronização, de pouca porosidade ao individual, de açodamento do sujeito, em que nem sempre se pode expressar de modo livre, em que nem sempre as pessoas se conhecem, se aproximam e constroem vínculos. Um espaço no qual nem sempre o sujeito pode pertencer. Esses sentidos se confrontam com os de proximidade, acolhimento, inclusão e vinculação presentes em cidades menores, ou mesmo em espaços não urbanos. O slogan, assim formulado, caminha em uma direção oposta, buscando a proximidade, a inclusão, a vinculação do sujeito com esse espaço.
Ainda que o efeito desse slogan possa ser o de uma ordenação desse caos, de organização do espaço urbano, o que pode ser fortalecido pela existência de diversas obras de mobilidade realizadas pela gestão municipal 2017-2020 e 2021-2024, como analisaremos na segunda formulação presente no corpus, há que se considerar que esse discurso não é transparente, mas, justamente, submetido à opacidade. Isso significa que a formulação “acolhedora” não produz, como efeito, uma cidade realmente “acolhedora”, mas escancara, em alguma medida, o modo como o urbano nem sempre é acolhedor. O espaço da rua, constituído em meio a uma ordem urbana, está perenemente em choque, em conflito, emergindo os sentidos de desordem, ou seja, distantes daquilo que se planeja inicialmente quando se pensa o urbano. No caso do slogan em tela, um efeito possível é justamente o oposto daquele imaginado pela formulação: o de desacolher, o de desassistir, o de excluir.
Passemos à análise da segunda formulação presente no corpus deste estudo. No período dessa administração municipal (2017-2020 e 2021-2024), uma das obras concluídas foi um viaduto ligando as regiões sul e leste, especificamente entre as avenidas Francisco Junqueira, Maria de Jesus Condeixa e Antonio Diederichsen. Em função da pandemia, este viaduto foi nomeado como “Profissionais da Saúde”, como podemos observar na Figura 2.
Figura 2: Viaduto Profissionais da Saúde, na cidade de Ribeirão Preto - SP.

Fonte: Reprodução/EPTV.
Segundo informações do Portal G1, publicadas em 26 de fevereiro de 2021, o viaduto integra o Pacote de Mobilidade Urbana do governo municipal, que teve um custo final de R$ 15,5 milhões. As obras começaram em setembro de 2019 e os trabalhos duraram 17 meses. Trata-se de um viaduto localizado em uma região bastante movimentada da cidade, sendo parte de um projeto maior que visa integrar diferentes regiões de Ribeirão Preto, com a construção de viadutos, corredores de ônibus e demais instalações que permitam, de fato, uma maior mobilidade na cidade.
O que nos chama a atenção nessa formulação, especificamente, é a nomeação em reverência não a um determinado cidadão ou figura pública de destaque, como observamos na maioria das obras públicas, mas o reconhecimento de uma determinada gama de profissionais. Segundo informação do Portal de Notícias G1, “por conta da pandemia, o nome escolhido pela Prefeitura ao viaduto é ‘Profissionais da Saúde’, como forma de homenagear os trabalhadores da linha de frente contra a COVID-19”.
Antes de adentrarmos na análise, é importante retomar que a nomeação “pandemia” foi apresentada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Em 30 de janeiro de 2020, a OMS decretou a COVID-19 como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII), seu mais alto nível de alerta. Em 11 de março de 2020, a OMS anunciou que estávamos vivenciando uma pandemia. Em 05 de maio de 2023, a OMS declarou o fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional referente à COVID-19, considerando o avanço da vacinação em diversas partes do mundo, o declínio de hospitalizações e internações decorrentes da doença, bem como o aumento da imunidade da população em geral para o vírus SARS-CoV-2.
Segundo o Painel Coronavírus (https://covid.saude.gov.br/), mantido pelo Ministério da Saúde e atualizado quase que diariamente, desde o início da pandemia, foram confirmados, no Brasil, 38.832.913 casos e 712.537 óbitos decorrentes da COVID-19 e de complicações associadas à doença. No município de Ribeirão Preto, com uma população de 703.293 pessoas, desde o início da pandemia, foram confirmados 109.530 casos, com 3.603 óbitos.1
Há que se considerar que a cidade de Ribeirão Preto é reconhecida como um grande polo nacional na área de saúde. Entre as universidades existentes no município, destaca-se o campus da Universidade de São Paulo, a USP, que conta com diversos cursos na área de saúde, como Medicina, Enfermagem, Odontologia, Psicologia, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Nutrição e Terapia Ocupacional. Nesse campus, encontra-se o Hospital de Clínicas, ligado à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, que realiza atendimentos em saúde, além da formação de estudantes de saúde em cursos de graduação e pós-graduação, representando um importante núcleo de ensino, pesquisa e extensão universitária no cenário brasileiro. O HC-RP possui uma área construída de quase 180 mil m2, 815 leitos gerais, 110 leitos de UTI. Apenas no ano de 2021, período pandêmico considerado no presente estudo, foram realizados 587.791 procedimentos, 26.361 internações e 18.826 cirurgias, dados esses que revelam a grande estrutura existente, além da importância desse equipamento para a cidade, a região metropolitana de Ribeirão Preto e para o estado de São Paulo.2
Segundo Lima et al. (2020), algumas práticas políticas corporificadas durante a pandemia se encontram na necropolítica, sobretudo pela existência de narrativas e ações governamentais frente à pandemia que priorizavam vidas e corpos específicos. Assim, nem todas as ações políticas buscaram atingir a população em geral. As campanhas como “Fique em casa”, por exemplo, atingiram determinadas pessoas, mas não toda a classe de trabalhadores, o que revela distorções e atravessamentos que podem ser melhor compreendidos pela via discursiva.
Voltemos à formulação do viaduto: “Profissionais da saúde”. Não se trata, especificamente, de uma classe profissional como a de médicos ou de enfermeiros, por exemplo, mas de uma formulação genérica, profissionais de saúde, abarcando, “em teoria”, todos os profissionais que atuam ou que podem atuar nesse seguimento de cuidado à saúde humana, como médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, técnicos de enfermagem, entre outros. A nomeação “profissionais”, portanto, visa a abarcar essas diferentes categorias que, de modo expressivo, atuaram em meio à situação de emergência de saúde pública, em decorrência da pandemia da COVID-19.
Quando apresentamos a expressão “em teoria”, com o uso das aspas duplas, podemos indiciar diferentes movimentos analíticos. Um deles é o que considera que, mesmo que a nomeação vise a homenagear todos e todas as profissionais de saúde, é uma ilusão interpretar que todos esses sujeitos estejam representados nessa formulação. Isso porque, para além de “profissionais da saúde”, apresenta-se a formulação de “profissionais de saúde que atuaram na linha de frente durante a pandemia”. Assim, nem todo profissional de saúde aparece contemplado nessa homenagem, mas, sobretudo, os profissionais de linha de frente, que atuaram diretamente na assistência aos pacientes. Para estar na linha de frente, diversos critérios deveriam ser atingidos, o que envolve a formação profissional, a experiência, a disponibilidade de trabalhar, a idade, a inexistência de impedimentos de saúde, entre outros, ou seja, nem todos os profissionais de saúde puderam ocupar a posição da chamada linha de frente.
Além disso, devemos referir que o Brasil, mesmo com uma legislação desenvolvida no que se refere à saúde pública, com a consolidação do Sistema Único de Saúde, o SUS, ainda se estrutura em modelos hegemônicos como o que apregoa a centralidade da figura do médico e a fragmentação do cuidado por meio de especialidades. Mesmo com toda a crítica acerca do modelo biomédico e com um SUS alinhado a paradigmas mais contemporâneos, observa-se, na maioria dos equipamentos de saúde, a soberania do fazer médico sobre o de outras categorias.
Mesmo quando discutimos a relevância do papel do profissional de enfermagem nesse cenário, por exemplo, considerado o maior contingente de profissionais de saúde em nosso país, vemos que permanece a valorização do profissional médico como uma figura de mais-saber, de maior prestígio, com maior remuneração e que representa, no senso comum, a figura de alguém capacitado, estudado e formado para prestar a excelência do cuidado. Essa perspectiva diminui a relevância e o reconhecimento das outras categorias profissionais, entre elas a enfermagem (Ribeiro; Scorsolini-Comin; Santos; Dalri, 2022). Como efeito, podemos discutir que a formulação “profissionais da saúde” não necessariamente abarca e considera, em sua materialidade, todos os profissionais, mesmo no contexto da pandemia. Há, portanto, uma ilusão de inclusão.
Embora a imagem dos profissionais de enfermagem tenha sido fortalecida durante a pandemia, as mudanças nas condições de trabalho e de valorização profissional não acompanharam o status circulante na imprensa e nos mais diversos meios de comunicação (Broering; Padilha; Forte; Peres, 2023). Quando analisamos o cenário pós-pandêmico, observamos que a categoria dos profissionais de enfermagem ainda luta pelo reconhecimento de seu trabalho, o que atravessa a busca por melhor remuneração e redução de jornada de trabalho, por exemplo. Em que a nomeação “profissionais da saúde”, portanto, dialoga com esse cenário? Um dos aspectos aqui problematizados é que a discursivização, embora tenha se dado em tom de homenagem, não reflete, de fato, uma valorização, embora marque ou delimite, de modo importante, determinado período de tempo, o da pandemia da COVID-19.
A formulação “profissionais da saúde” estampada no viaduto pode funcionar como uma memória discursiva importante para nos lembrar do período pandêmico e da importância desses profissionais nesse contexto. Ainda assim, a homenagem não contribui para a valorização dos profissionais aos quais, aparentemente, foram endereçados com a formulação proposta. Em um cenário de saúde que supervaloriza a figura do médico e que, historicamente, tem desvalorizado o saber de outras categorias, ainda que movimentos interprofissionais visem a alterar essa relação, consideramos que, discursivamente, a nomeação genérica, de fato, não inclui todos os profissionais que podem ser contemplados pelo termo.
Considerações finais
O objetivo do presente estudo foi discutir as implicações do discurso político na composição de duas formulações presentes no espaço urbano do município de Ribeirão Preto, interior do estado de São Paulo, durante o período pandêmico (2020-2023). Pela análise das duas formulações, algumas considerações podem ser tecidas. A gestão municipal parece querer sustentar sentidos mais estabilizados sobre a sua atuação e os seus efeitos nas vidas das pessoas, por exemplo. Sentidos estabilizados e que, pelo efeito da ideologia, possam fazer parecer que “global” e “acolhedor” refiram-se a uma gestão municipal que está atenta e preocupada com todos os cidadãos e todas as cidadãs. Embora a gestão municipal se esforce por sustentar tais sentidos sobre o que pode vir a ser o “global” e o “acolhedor”, compreendemos que o espaço urbano é marcado pelo dissenso, pelas disputas, de modo que o dizer se materializa como um espaço no qual os discursos podem ser sempre outros, expostos à opacidade. Assim, nem sempre o sentido de acolhedor, por exemplo, pode ser sustentado em todas as políticas públicas e mesmo tomando como tela o espaço da rua. De igual monta, o sentido global que permite a inclusão de todos mostra-se opaco, permitindo que os sentidos sobre a exclusão social façam ranger essa formulação considerada ideal pela gestão pública. O slogan, nessa perspectiva, nos convida ao equívoco e à falha, e não à estabilidade do dizer.
Em relação à homenagem aos “profissionais da saúde”, há que se destacar que, apesar de essa formulação, aparentemente, sugerir a inclusão de todas as categorias de profissionais dedicados à assistência em saúde, apontamos que, ideologicamente, a estrutura de saúde e as representações sociais sobre esses profissionais ainda priorizam determinadas categorias, como os médicos. Assim, embora a pandemia tenha permitido uma maior visibilidade dos profissionais de enfermagem, por exemplo, destacamos que esse movimento não vem acompanhado de uma valorização da categoria, como se aventava à época da pandemia. Vemos, portanto, que a estrutura discursiva parece indiciar uma fragmentação que repercute o modelo biomédico ainda corporificado em diversos equipamentos de saúde.
No entanto, a formulação no viaduto pode ser um indício significativo acerca de um determinado período histórico, sendo parte importante da reconstrução de uma memória coletiva sobre o trânsito pandêmico. Ainda que uma homenagem seja uma forma de não permitir o esquecimento do dizer, no nível do real, há que se problematizar sobre quais memórias essa formulação será materializada e a quais protagonistas ela irá se remeter no porvir.
Por fim, compreendemos que o espaço urbano, em sua abertura para a falha e para o equívoco, permite-nos um exercício analítico que também se exponha a esses movimentos, ampliando as possibilidades de leitura e interpretação dos dizeres. O espaço urbano é atravessado pelo político, sendo que nenhuma formulação é neutra e destituída dessa condição. Esperamos que as reflexões aqui tecidas possam ser acompanhadas para além da pandemia, em um convite perene à afetação pelos sentidos no espaço urbano.
Referências
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GOMES, M. A. S. Desvelando o mito da “Califórnia”: aspectos da desigualdade socioespacial em Ribeirão Preto-SP. Revista de Geografia, Juiz de Fora, v. 2, n. 1, p. 1-11, 2011.
LIMA, C. M. S.; SILVA, F. A.; SILVA, L. R. J.; FRANCO, F. C. Necropolítica e biopoder nas estratégias de gestão da pandemia. Revista de Geografia, Juiz de Fora, v. 10, n. 2, p. 204-238, 2020.
ORLANDI, E. P. A cidade como espaço Político-Simbólico: textualização e sentido público. In: ORLANDI, E. P. Formulação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes, 2001. p. 185-202.
POMPÉIA, C. Agri-bolsonarism: a movement led by agricultural elites and far-right politicians in Brazil. The Journal of Peasant Studies, p. 1-25, 2024.
PORTAL DE NOTÍCIAS G1. Viaduto que liga zonas Leste e Sul de Ribeirão Preto é liberado para motoristas após 17 meses. Publicada em 26 fev. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2021/02/26/viaduto-que-liga-zonas-leste-e-sul-de-ribeirao-preto-e-liberado-para-motoristas-apos-17-meses.ghtml. Acesso em: 11 jul. 2024.
RIBEIRO, B. M. S. S.; SCORSOLINI-COMIN, F.; SANTOS, S. V. M.; DALRI, R. C. M. B. Brazilian nursing in pandemic times and the bicentennial of Florence Nightingale. Revista Brasileira de Enfermagem, São Paulo, v. 75, e20210081, 2022.
SANTANA, W. A.; PIMENTA, D. N.; ANTUNES, M. N. Cenas discursivas da pandemia de Covid-19: o discurso sobre o isolamento social na imprensa. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, p. 18-32, 2021.
SCORSOLINI-COMIN, F.; BERTOLINO, J. G.; PACÍFICO, S. M. R. Sujeito e (des)esperança: Carlos Drummond de Andrade e a pandemia. Policromias – Revista de Estudos do Discurso, Imagem e Som, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 128-156, 2024.
Data de Recebimento: 19/08/2024
Data de Aprovação: 07/10/2024
1 Dados atualizados em 11 de julho de 2024. Disponível em: https://infoms.saude.gov.br/extensions/covid-19_html/covid-19_html.html#
2 Dados disponibilizados publicamente no site do HC-FMRP-USP, em: https://site.hcrp.usp.br/hcfmrp-em-numeros/. Acesso em: 11 jul. 2024.