Remendar para reparar: uma escritura política


Solange Mittmann



Sinalizações iniciais

O objeto da reflexão materializada neste artigo é um gesto de escritura política: um grupo de mulheres se reúne em uma praça para resgatar e reparar, através da costura, o tecido de um windbanner de campanha política de uma vereadora que fora vandalizado. Resultante desse gesto de reparo, assoma o efeito de fechamento em uma integralidade recomposta pela costura, mas também o efeito de abertura, a partir da afixação de um remendo que põe à mostra e denuncia a violência de outrem.

No caminho dessa discussão, são analisados diferentes objetos presentes em um vídeo de relato: um windbanner de campanha política de uma candidata a vereadora, a denúncia da violência política perpetrada sobre a campanha da vereadora, a reunião de mulheres feministas de esquerda para a execução de resgate e costura do material vandalizado, suas falas sobre o ocorrido e, por fim, a exposição do objeto remendado aos passantes.

Diante do tecido remendado, discuto um processo discursivo que aciona dois efeitos de sentido para o verbo reparar. O primeiro é o de consertar um material danificado. Tal movimento poderia funcionar como uma tentativa de ocultar os resquícios do dano, o que se buscaria fazer com o recurso da cerzidura, projetando o efeito de que nunca houve a vandalização. Na costura aqui analisada, ocorre o contrário, pois ela destaca, com o recurso de um remendo e da costura aparente, a vandalização e o conserto, como um já-lá que insiste em que os passantes reparem em sua presença. Esse é o segundo efeito de sentido para o verbo reparar, que leva a pressupor que, ao fazer o passante deparar-se com o objeto remendado, ele seja instigado a observar o remendo e a refletir sobre a contraposição de duas posturas políticas afirmadas por dois gestos que funcionam como práticas discursivas: o gesto de rasgar como forma de agressão política, e o gesto de costurar como forma de enlace político.

 

Contextualização: o litígio político marcado pela violência

Nas eleições de 2024 para Prefeituras e Câmaras de Vereadores, popularizou-se em diversas cidades, inclusive em Porto Alegre/RS, o uso de windbanners de campanha, objeto de publicidade externa que melhor se adaptava às permissões e restrições das normas eleitorais daquele ano.

No período da campanha, a vereadora de Porto Alegre Abigail Pereira, candidata à reeleição pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), deparou-se com alguns de seus windbanners derrubados e rasgados. Os objetos apresentavam a foto de Abigail acompanhada de outras mulheres da política vinculadas ao mesmo partido ou aliadas.

Em seguida, como resposta ao gesto violento do vandalismo, um grupo de mulheres feministas de esquerda se reuniu com a vereadora em um parque da cidade e realizou o gesto político de resgatar uma das peças vandalizadas. Tal gesto consistiu em costurar coletivamente o tecido rasgado e colocá-lo novamente em seu suporte para exposição.

Chamo aqui essa reunião de um gesto comunal, ou seja, realizado por uma pequena comunidade — neste caso, um grupo de mulheres feministas de esquerda reconhecidas por sua postura e seu ativismo — que, em suas diferenças individuais (por exemplo, a filiação ou não ao mesmo partido da vereadora), assume a mesma posição de enfrentamento à violência política.

Durante a costura coletiva, foi gravado um vídeo, posteriormente intitulado “A nossa luta ninguém apagará!”, em que aparecem imagens desse trabalho de costura e falas individuais de mulheres participantes. O vídeo foi postado no perfil de Abigail no Instagram e circulou em diferentes redes sociais. A seguir, descrevo e analiso alguns frames desse vídeo.

Figura 1: Transcrição da legenda: “Em cada esquina nossas ideias florescem.”

Frame do vídeo “A nossa luta ninguém apagará!”2 

 

No início do vídeo, são apresentadas imagens dos windbanners da candidata com sua foto acompanhada de outras mulheres atuantes na política partidária. Os cenários são espaços abertos, a céu claro e com o vento balançando o tecido. Em off, a ex-deputada Manuela D’Ávila diz: “Em cada esquina nossas ideias florescem, e em cada rua nossa voz ecoa por uma cidade boa para todas as pessoas.”

Na sequência, em contraste com as cenas coloridas, destaca-se uma cena em preto e branco:

Figura 2: “Podem tentar nos derrubar,”

 

 

Na cena, o foco está sobre o windbanner que apresenta o apoio de Manuela D’Ávila a Abigail Pereira. O objeto de campanha está rasgado e no chão — retrato de um rasgo no tecido político brasileiro investido de práticas de ódio. O trabalho de edição de retirada das cores indicia, na organização da materialidade fílmica, uma divisão que é da ordem da materialidade histórica, ou seja, o litígio político que constitui as condições de sua produção. Dois posicionamentos políticos opostos na cidade são confrontados pelo contraste entre as imagens: o colorido apresenta a campanha da candidata, enquanto o preto e branco é reservado à cena que apresenta a bandeira no chão, associada pela narração à postura política de quem se opõe à sua candidatura: “Podem tentar nos derrubar”.

Ou seja, a campanha da vereadora é apresentada com cores claras, e esse colorido está presente em todo o vídeo, à exceção da cena em que um dos objetos está no chão. A vandalização do objeto é apresentada na forma de denúncia, como prática do oponente, e o trabalho de edição aponta para esse outro como ausência do colorido.

Além disso, a oposição também se dá sobre a disposição do objeto: o vídeo inicia com windbanners em sua posição de instrumentos de campanha: uma bandeira vertical, presa a uma base e em movimento pelo vento. Na figura 2, a bandeira está ao chão e, portanto, fora de sua base e sem movimento. Assim, a leitura da divisão imagética entre colorido X não colorido, em pé X no chão, inteiro X em pedaços aciona a memória de posturas políticas: alegria X fúria, vida X morte, defesa de princípios políticos X silenciamento pela violência.

Essa configuração se reafirma através dos enunciados verbais que acompanham as imagens em sequência. Simultânea ao frame da figura 2, ouvimos em off a voz de Abigail e, sobre a imagem, a legenda dessa fala: “Podem tentar nos derrubar”. O enunciado continua em nova cena, agora em cores, em que Abigail olha para a câmera: “mas nós seguimos em frente”.

 

Figura 3:“mas nós seguimos em frente”

 

 

Para a análise do enunciado “Podem tentar nos derrubar, mas nós seguimos em frente, relembro a esquematização de um enunciado dividido feita por Courtine (2009), em sua análise de discursos de líderes comunistas franceses dirigidos aos cristãos, quando o autor apresenta, como resultado da análise, que um mesmo enunciado pode articular formulações provenientes de duas formações discursivas em relação de conflito (a comunista e a cristã). Diante disso, proponho a leitura do enunciado acima também através do esquema de um enunciado dividido:

 

eles tentam nos derrubar, tentam impedir de seguirmos em frente

E -------------------------------------------------------------------------------

eles não conseguem nos derrubar, nós seguimos em frente

 

Esse contraste entre nós e eles e entre derrubar e seguir em frente também está sinalizado na sequência de imagens. A bandeira de campanha aponta, metonimicamente, para um “nós” cuja determinação se apresenta no próprio tecido (foto, nome, número, sigla), e esse objeto, assim como o “nós”, é significado em rede: outras bandeiras em cenas anteriores, a vereadora em pé em cena posterior, outras mulheres também em pé em cenas anteriores e posteriores, além da luta feminista citada no decorrer do vídeo. Assim, o pronome em primeira pessoa do plural presente na primeira formulação (“nos derrubar,”) indica a presença de algo já sabido: esse plural envolve mulheres da política e posicionamento político feminista de esquerda, o que é apresentado pela bandeira de campanha. Já o verbo em terceira pessoa do plural (“podem tentar”), por sua vez, leva ao efeito de indeterminação sobre os agentes da tentativa de derrubar a candidata e o que ela representa (o partido, a luta feminista) e da efetiva derrubada do objeto de campanha.

O gesto de rasgar e derrubar é acionado pela filmagem do objeto rasgado e no chão, um fato não presente, identificado como um pré-construído, algo já lá, já sabido, indiciado como um “eles” ausente, mas presente.

Assim, retomando o esquema anterior, podemos acrescentar o seguinte contraste imagético:

 

formulação em preto e branco sinaliza a significação de “eles”

E: ----------------------------------------------------------------------------------

formulação em cores sinaliza a significação de “nós”

 

A passagem da imagem em preto e branco à imagem em cores marca a oposição, com a prevalência da segunda imagem. O mesmo ocorre com a divisão do enunciado verbal, com a prevalência da segunda formulação (“Podem tentar nos derrubar, mas nós seguimos em frente”). Assim encontramos pistas, nas materialidades verbal e imagética, da oposição entre

- eles: os que rasgaram e jogaram ao chão o material de campanha, os que tentam derrubar, e

- nós: as que rompemos com a expectativa de ser derrubadas junto com o material e seguimos em frente.

A articulação entre os enunciados imagéticos e entre os enunciados verbais encaminha para um mesmo efeito de sentido: diante da violência cometida por “eles”, em sua tentativa de derrubar, interromper, silenciar a luta das mulheres de esquerda, estas seguem em frente na campanha política e na luta feminista. Essa argumentação se apresenta também em um texto explicativo que acompanha o vídeo como uma legenda no Instagram:

 

Nas últimas semanas nossos windbanners foram roubados, rasgados e depredados.

Nos mesmos lugares de onde sumiram os nossos, permaneceram em pé os de outros candidatos.

A pergunta que fica é: por que eles sentem tanto ódio de nós? Por que tentam nos invisibilizar a qualquer custo?

O fato é que eles não conseguirão derrubar uma candidatura feminista e comprometida com as lutas do povo, porque eu não ando só, e porque somos mais do que imagem – somos sonho, história, ideia.

Ponto a ponto, mão a mão, reconstruiremos o que eles tentaram destruir!

 

Já presente no título do vídeo “A nossa luta ninguém apagará!”e na fala de Abigail, a indeterminação do oponente-agressor retorna em formulações do trecho transcrito acima. Podemos reunir tais formulações — do título, da fala no vídeo e da legenda acima — em uma matriz parafrástica:

 

A nossa luta ninguém apagará!

Podem tentar nos derrubar,

eles sentem tanto ódio de nós

tentam nos invisibilizar a qualquer custo

eles não conseguirão derrubar uma candidatura

eles tentaram destruir

 

É interessante notar que, embora o agressor não seja identificado, o posicionamento de violência política transforma, pelo efeito de pré-construído, essa indeterminação em identificação de uma posição-sujeito: um sujeito, um grupo oponente, uma postura política de violência que se pode reconhecer.

Neste momento de discussão do objeto em análise, cabe lembrar que, no se refere à metodologia da Análise do Discurso, não se trata de uma tentativa de exaustividade, de dar conta do todo do texto, pois o fechamento do texto em uma unidade é apenas um efeito. Por isso, torna-se mais producente a opção por recortar enunciados, desmembrar as formulações que os compõem e esgaravatear, no funcionamento da materialidade linguística e imagética, vestígios do funcionamento da materialidade da contradição histórica, ou seja, o litígio social e político. Além disso, não trabalhamos em busca de um completo aprofundamento de análise de um funcionamento, pois não há uma totalidade de questões que possam ser levantas. Assim, detenho-me nesse momento a apontar o funcionamento da divisão eles X nós como marca do litígio político como comentei.

E considerando que “toda formulação apresenta em seu ‘domínio associado’ outras formulações que ela repete, refuta, transforma, denega, isto é, em relação às quais ela produz efeitos de memória específicos” (Courtine, 2009, p. 104), aciono formulações pinçadas do material em análise, e outras possíveis na mesma matriz de sentido de uma formação discursiva em que a campanha da vereadora parece inscrever-se. Assim, a partir do enfrentamento observado da construção discursiva de um “nós” diante da construção discursiva de um “eles”, é possível delinear duas matrizes parafrásticas:

 

Matriz parafrástica descritiva

de “a nossa política”

Matriz parafrástica descritiva

de “a política deles”

nossas ideias florescem

nossa voz ecoa

reconstruiremos

candidatura feminista e comprometida com as lutas do povo

somos mais do que imagem – somos sonho, história, ideia

colorido, em pé, inteiro, em movimento pelo vento

luta feminista, disputa democrática, enlace amoroso

eles sentem tanto ódio de nós

tentam nos invisibilizar, apagar nossa luta, nos silenciar, nos derrubar

tentaram destruir (bandeiras, lutas)

derrubaram e rasgaram as bandeiras

vandalizar as bandeiras é atacar as pessoas

preto e branco, rasgado e estagnado no chão

autoritarismo, destruição, morte simbólica

 

Na primeira matriz, a “nossa” política é significada como alegria, vida, construção e reconstrução. Na segunda, a política “deles” é significada como discurso de ódio, gestos de violência, destruição, silenciamento, morte. As formulações de ambas as matrizes são produzidas no âmbito de uma mesma formação discursiva — aquela em que os princípios democráticos e de luta feminista são defendidos. É a partir dessa formação discursiva que estão construídas imagens de si, ou seja, das mulheres envolvidas na campanha e também de mulheres que participaram do gesto solidário, e projeções dos oponentes responsáveis pelo vandalismo.

 

A costura que repara, cuida

Em carta a Einstein3 sobre o que move as guerras e quais seriam as alternativas para enfrentá-las, Freud aborda o instinto de destruição e coloca como seu contraponto Eros:

 

Se a disposição para a guerra é uma decorrência do instinto de destruição, então será natural recorrer, contra ela, ao antagonista desse instinto, a Eros. Tudo que produz laços emocionais entre as pessoas tem efeito contrário à guerra. Essas ligações podem ser de dois tipos. Primeiro, relações como as que se tem com um objeto amoroso, embora sem objetivos sexuais. A psicanálise não precisa se envergonhar quando fala de amor, pois a religião também diz: “Ama o próximo como a ti mesmo”. Sem dúvida é uma coisa mais fácil de se pedir do que de realizar. O outro tipo de ligação emocional é o que se dá pela identificação. Tudo que estabelece importantes coisas em comum entre as pessoas produz esses sentimentos comuns, essas identificações. Nelas se baseia, em boa parte, o edifício da sociedade humana. (Freud, 1932, p. 430)

 

Diante do material de campanha vandalizado, o gesto de descartá-lo pode ser interpretado como o reconhecimento da destruição efetiva e simbólica, da violência exercida pelo vândalo, da morte simbolizada pelo rival político. Por outro lado, recorrer a Eros como antagonista do instinto de destruição, realizando o movimento contrário, isto é, a performance de juntar os pedaços e pôr curativo provoca a ruptura do esperado, aciona outros sentidos, reinterpreta a política como laço comunal, emocional.

A identificação entre membros de uma comunidade, com uma constância na promoção de sentimentos comunitários e vínculos afetivos, seria, segundo Freud (1932), a força da comunidade e a base do direito. Nessa mesma direção, o que observamos no vídeo é a comunhão com outras mulheres feministas de esquerda, o que se apresenta como alternativa de enfrentamento à violência, ao ódio e à tentativa de silenciar, invisibilizar e inviabilizar. Nesse sentido, é que se deu costura coletiva (comunal) para reparação de um dos windbanners rasgados. E é importante destacar que essa costura se deu em um parque central da cidade, espaço urbano aberto, de passagem e de debate público.

A costura comunal — materialidade gestual performática — trabalhou e ressignificou a materialidade do tecido de campanha rasgado. Esse tipo de performance possibilita ressignificar o modo de fazer política. Afinal, a costura de reparo feita por mulheres aciona uma memória que é do campo da atuação de cuidado, imposta às mulheres a serviço da reprodução das condições econômicas de produção, mas que, ao indiciar o protagonismo feminino, também funciona como gesto político de resistência, seja no ambiente privado, seja no comunitário, participando da política dos comuns (termo de Federici, 2022).

Quando executada no âmbito da política partidária, a costura comunal marca a resistência feminista àquele discurso fascista que promove o ódio e a eliminação do oponente. Assim, a política dos comuns e a política partidária se articulam e se afetam mutuamente. É a possibilidade de forjar uma nova realidade de pensamento e de prática política democrática, no enfrentamento de práticas patriarcais fascistas.

 

Figuras 4 e 5:“juntas nós reconstruiremos o que tentaram destruir.”

 

 

A costura por diferentes mãos de mulheres, num gesto de resistência e de reparação, imprime uma nova formulação sobre aquela formulação já posta pelo material de campanha e se sobrepõe à formulação do rasgo resultante da violência política. Trata-se agora de uma formulação de reparo. Assim, as mãos sobre o objeto vandalizado fazem um trabalho de corpo sobre corpo.

As técnicas, as práticas e os discursos da manualidade feminina são ressignificados quando passam a constituir o discurso político feminista e denunciam não só o litígio social, mas a política pautada pela destruição e pela recusa ao debate democrático. Os corpos estão sentados, com as mãos ocupadas, como é imposto à mulher pelas sociedades patriarcais. Mas esses corpos estão em comunhão, numa roda de mulheres que conversam sobre feminismo, campanha política, resistência antifascista. A performance vai além, pois dá-se a ver em um espaço de passagem urbana.

 

A costura que instiga a reparar, a notar

Como já disse, tanto a costura de reparo em uma roda de mulheres como a exposição dos windbanners remendados se dão na rua, no espaço aberto de um parque central da cidade.

 

Se é a rua que possibilita os fluxos, permite encontros, configura rotas e permite destinos, é a rua que compõe a carga e a cena dramática do cotidiano. Drama constituído de desigualdades, assimetrias e também de utopias. Drama constituído de alteridade, interseccionalidade e ideologias. Drama feito de comuns e contrários, portanto locus da diversidade, e corpus do imaginário.

As manifestações, passeatas, marchas e protestos trafegam por sua espacialidade, empunhando seu posicionamento. As paradas identitárias, frequentemente oprimidas, encontram nela o meio de viabilização de sua existência resistente. As festividades têm nela os trajetos de expressão do que constitui os indivíduos e as poéticas de suas vidas. (Santos, 2025, p. 50)

 

A costura, então, é produzida pela comunhão das mulheres envolvidas e direcionada aos passantes do parque — “comuns e contrários” —, e o vídeo é direcionado aos internautas das redes sociais. Assim, além do trabalho de corpo sobre corpo, há trabalho de endereçamento a outros corpos. “Mobilizar-se é travar no espaço da cidade um embate do qual ele serve de suporte e corporeidade sensível para que a insurreição materialize os objetos de sua indignação.” (Santos, 2025, p. 58). A exposição da performance de costura conjunta e a exposição do banner remendado se dão na corporeidade do parque e também na corporeidade digital da internet, nas redes sociais onde o vídeo circula.

 

A costura como escrita e como escritura

Termos como tecido e costura são seguidamente acionados para descrever texto e escrita autoral, respectivamente. Em uma reflexão sobre a categoria texto e a escrita, Indursky (2009, p. 127) assim descreve o texto: “Um texto [...] pode ser comparado a uma tapeçaria. Para tecer um tapete, cada fio se enlaça a outro fio. E, para tecer um texto, cada fio discursivo se trama a outro fio discursivo.” E a autora afirma que o texto é uma materialidade de dupla face: como um texto empírico, com uma superfície linguística, fechado em si mesmo, e como “uma materialidade discursiva, aberto à exterioridade, ao interdiscurso e afetado por suas condições de produção e cujo sentido permanece indeterminado”. (Indursky, 2009, p. 118). Com base na observação dessa dupla face, a autora distingue escrita, que diz respeito à organização da superfície linguística, de escritura, que é um processo discursivo de textualização da exterioridade, remetendo à materialidade discursiva.

Essa textualização consiste na sintagmatização da heterogeneidade, que, ao ser organizada, leva aos efeitos homogeneidade, de unidade, de totalidade, ou seja, leva à tessitura, ao efeito-texto. Na direção contrária a esse efeito executado por essa forma de escrita, Indursky (2009) traz excertos de obras de Clarice Lispector que apresentam um trabalho autoral de não-unidade, de não-fechamento, pois, ao misturar vozes e apontar espaços de silêncio, a escritora escancara a abertura ao interdiscurso.

E é a abertura que aqui me interessa. Isso porque a costura feita sobre a bandeira rasgada não é uma cerzidura em busca de fazer desaparecer o rasgo, não leva ao efeito de fechamento, de unidade, de não contradição. Ao contrário, acentua o rasgo, com aplicações de retalhos de tecidos sobre o tecido, como curativos à mostra. O ponto de captura do olhar do passante é o curativo, pois é algo não esperado em material de campanha política.

 

Figura6

 

 

O remendo curativo funciona ao modo da técnica Kintsugi, de restauração de cerâmicas e porcelanas quebradas, utilizando laca ou cola misturadas com pó de ouro ou outro metal de valor. Tal forma de restauro destaca a ruptura como história da peça e, mais do que isso, valoriza a colagem sobre a ruptura, valoriza a cicatriz. No windbanner remendado, a cicatriz feita de retalho de tecido costurado denuncia a violência do outro (“eles”).

Com isso, escancara o litígio social e a postura política antidemocrática: sobre gestos de violência política de derrubar e rasgar, a costura se realiza como escrita e escritura, como performance comunal de reparar — verbo que pode acionar tanto o sentido de trabalho coletivo de reparação, emenda e curativo, como o sentido de instigação ao passante para que repare, isto é, pare para olhar com atenção.

 

Um arremate

Ao deparar-se com uma peça de campanha política vandalizada — resultado de uma prática fascista de aniquilação do oponente político —, um grupo de mulheres feministas de esquerda se reúne em um enlace comunal e realiza uma performance de costura em espaço aberto. Com essa prática ritualística, enfrentam aquele gesto de transformar em dejeto a pessoa e sua imagem em campanha. Apenas descartar o material transformado em dejeto pode ser interpretado como reconhecimento da morte. O que as mulheres fazem é juntar os pedaços, integrar, realizar um trabalho coletivo feminino de cuidado, oferecendo continuidade, vida ao objeto.

Mais do que isso, a costura não foi de cerzimento, escondendo o rasgo, mas, ao contrário, foi de escancarar o rasgo e a violência política através do remendo aparente. O remendo sinaliza e põe em destaque as condições de produção, que envolvem o litígio político, o rasgo social sinalizado pelo discurso de ódio e o embate entre morte e vida, violência e cuidado.

Além disso, reerguer e replantar o windbanner remendado no espaço público de passagem faz com que o remendo convoque o olhar e a curiosidade do passante. Os cidadãos e as cidadãs são convocados e convocadas em seu corpo passante a olhar o remendo aparente e, por ele, o rasgo do corpo do banner, onde está inscrito o corpo-imagem da candidata. Com isso, tanto o rasgo social da luta de classes como a defesa da democracia apresentam-se ao olhar do corpo passante.

 

 

Referências:

COURTINE, Jean-Jacques. Análise do discurso político: o discurso comunista endereçado aos cristãos. Tradução de alunos do Bacharelado em Letras da UFRGS. São Carlos: EdUFSCar, 2009.

FEDERICI, Silvia. Reencantando o mundo: feminismo e a política dos comuns. Tradução Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2022.

FREUD, Sigmund. Por que a guerra? Carta a Einstein, 1932. In: Obras completas, vol. 10. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

INDURSKY, Freda. A escrita à luz da análise do discurso. In: CORTINA, Arnaldo; NASSER, Sílvia Maria Gomes (Org.). Sujeito e linguagem. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. p. 117-131

SANTOS, Gustavo Souza; Espaços de insurgência e citadinidade: dos imaginários da rua à ação política. RUA, v. 31, n. 1, p. 47-66, junho/2025.

 

 

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2  Encontrado em https://www.instagram.com/reel/C_nXhdGu7cn/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=dm9hbnB2NzhwbjRw. Acesso em 15/6/2025.

3  Em 1932, Einstein (assim como outros intelectuais) é instigado pela Liga das Nações a propor um diálogo a um interlocutor de sua escolha sobre um tema relevante para a sociedade. Einstein envia uma carta a Freud questionando sobre a guerra.

4  Doutora em Letras, professora titular do Instituto de Letras e docente do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS; ativista do coletivo Linhas de POA – Ativismo Bordado. E-mail: solange@ufrgs.br.