Pesquisadores do Labeurb debatem o Mal-Estar Ambiental em III Jornada Internacional de Análise de Discurso e Psicanálise

Encontro aconteceu nos dias 17 e 18 de novembro, em parceria com o Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), na Unicamp

Diante do sofrimento causado peças forças da natureza e o mal-estar climático e ambiental que se apodera da experiência de vida nos últimos tempos, pesquisadores da Psicanálise e da Análise do Discurso (AD) se reuniram no IEL nos dias 17 e 18 de novembro para debater causas e efeitos desse sofrimento humano.  O evento contou com conferências, mesas-redondas, minicurso e apresentação de trabalhos de pesquisa.

Pesquisadores do Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb) participaram como debatedores das sessões de apresentação de trabalho e apresentaram conferências sobre o tema. Na mesa de abertura, Marcos Barbai, um dos organizadores do evento, explica como o discurso ambientalista esconde, muitas vezes, uma nova ideia colonizadora ao propor falsas soluções (como apostar em produtos orgânicos e de produção agroecológica).

“Não tem como suturar, tem um mal-estar aí E eu penso que a que a gente tem a condição com o nosso campo teórico, que não é surdo ao político e ao social de abrirmos um caminho para pensar isso que já vem sendo sendo dito inclusive em termos de ansiedade climática”, diz Barbai. Segundo o pesquisador, o encontro tem também como objetivo a construção de uma rede latino-americana de pesquisa que leve em consideração a linguagem, os sujeitos e o sofrimento ao pensar esses temas.

Já Cristiane Dias, também pesquisadora do Labeurb, participou da conferência a três vozes: “Rebeldia e revolta em tempos de catástrofes climáticas”. Em sua fala, Dias retoma a revolta como um fenômeno contemporâneo a exploração do trabalho e parte dessas relações para pensar a influência do digital no catástrofe climática e, consequentemente, no sofrimento causado pela crise ambiental.

A pesquisadora destaca como as tecnologias digitais colonizaram cada canto do nosso planeta ao mesmo tempo em que passam uma sensação de desmaterialização. Ou seja, como o digital, cada vez mais ocupando territórios e corpos d’água para instalação de data centers, por exemplo, se apresenta desassociado de qualquer limite físico. Com isso, contribuem para uma sensação de crescimento irrestrito, “independente” de fontes de matéria-prima, desacelerando o enfrentamento à crise climática.

A conferência de encerramento foi apresentada por Eni Orlandi, com mediação de Greciely Costa, ambas pesquisadoras do Labeurb. Na apresentação, Orlandi leu o texto intitulado “A árvore, o homem e o impossível”, em que articula diversos conceitos da Análise do Discurso, área que ajudou a fundar no Brasil, com o discurso climático tomando como exemplo as imagens divulgadas durante as cheias que atingiram o Rio Grande do Sul no ano passado.

A pesquisadora amarra pontos em comum da psicanálise e da AD, especialmente quanto a interpretação do sujeito e da sua relação com a memória coletiva, a rede de significantes e as relações sociais que os constituem.

“O sentimento de fazer um com o outro é uma reação ao perigo que a interferência do mundo externo representa. Nossa busca de proteção face a nosso sentimento de desamparo. De um lado podemos assim dizer que as fronteiras do eu não são permanentes e de outro que o eu não está na origem, ele é um processo de construção que se opera na relação com o outro. E essa já é uma afirmação que também podemos fazer na análise de discurso”, explica Orlandi.

Para a pesquisadora, não é possível falar da atual crise climática sem falar da crise social, especialmente do esgotamentos dos Estados de sua função como guias sociais dos cidadãos. Sem esse direcionamento, as pessoas estão em bucas de novas formas de existir altamente influenciadas por grupos sociais que ajudam a definir os limites do “eu”, mas que não preenchem a solidão individual causada pela individualidade da experiência de cada pessoa.

Por Mayra Trinca